Guerreiras e Heroínas da Saga do Jiu-Jitsu Feminino- Parte 2

 Eu Também Quero Lutar! A Briga Pelo Direito de Competir

https://www.wshu.org/arts-culture/2024-07-19/storycorps-remembering-rusty-kanokogi-the-mother-of-womens-judo

Na Europa, o Judô feminino conseguiu mais liberdade que no Japão, que por várias décadas manteve a tradição de vedar às mulheres a oportunidade de competir como os homens. Os primeiros torneios femininos acontecem justamente na Europa, onde a sociedade já se constituía como mais avançada em relação às liberdades individuais das mulheres.

 Após a Segunda Guerra Mundial, tanto no Japão como na Europa e Estados Unidos da América, os esportes começam a se abrir para as mulheres e as competições femininas são realizadas de maneira mais frequente, mas ainda levaria muitas décadas para que a luta figurasse com competições de nível mundial.

As judocas tiveram que em vários países lutar para que tivessem oportunidades de competir como os homens faziam. O Judô se tornou esporte Olímpico em 1964 e neste tempo nem sequer havia na maioria dos países competições com categoria feminina.

Rusty Kanokogi é figura central nesta luta pelo direito lutar em competições. Segundo Mazaguchi (2020), Kanokogi iniciou no Judô em 1955, no Brooklyn YMCA, dojo no qual era a única mulher. Mesmo com vários episódios ruins, de machismo, sexismo, em um tempo que o assédio sexual era comum dentro e fora dos tatames, Kanakogi não desistiu e decidiu lutar com todas suas forças para mudar a sociedade a sua volta.

Seu primeiro embate contra o sistema foi em seu primeiro campeonato. Ela se inscreveu sem mencionar ser mulher e ficou como reserva de seu time. Na final por equipes, um dos membros do time principal se machucou e ela seria a única alternativa para seu time não perder. Kanakogi amarrou algo que disfarçasse seus seios e vestiu uma camisa para que ninguém notasse. A sua luta foi a mais rápida de todas, conquistando uma vitória em 30 segundos.

Após a glória da vitória, ela teve o banho de água fria que aquele mundo lhe reservara. As medalhas e o troféu da equipe foram tomados pela organização, pois os mesmos alegaram que era contra as regras do evento uma mulher lutar e seu time havia sido desclassificado por conta disto.

A polêmica criada por Kanokogi, fez com que os organizadores de eventos colocassem o termo masculino nos torneios, mas o que visava ser uma forma de afastar as mulheres da competição, foi na verdade um tiro no pé do machismo. Com a classificação dos torneios como masculinos, Rusty Kanokogi encontrou a brecha para criar os torneios femininos.

As batalhas travadas por Kanokogi foram muitas e sempre que pôde ela bateu contra o sistema e quebrou todos os tabus de sua época em relação às mulheres. Um exemplo disto foi sua visita à Kodokan, em uma época que ainda era proibida a participação de mulheres nos treinos dos homens. Mais uma vez Rusty não aceitou esta exclusão e lutou pelo direito de treinar com os homens, demonstrando sua habilidade e, quebrando a tradição machista da instituição, foi aceita no treino principal.

 A grande vitória para as tantas batalhas de Rusty Kanokogi e outras tantas mulheres nos Estados Unidos, Europa e Japão foi a realização do primeiro campeonato mundial de Judô Feminino em 1980. Da primeira batalha naquele campeonato local até o mundial em 1980, foram décadas de luta diária contra um sistema que usava toda sua força para cercear um direito básico, o de poder lutar e fazer a arte marcial que ama em toda sua essência.

  O resultado destas batalhas foi positivo, em 1988 as mulheres entraram como evento teste nos Jogos Olímpicos de Seul, e em 1992, nas Olimpíadas de Barcelona, foi efetivada a categoria feminino no Judô. Esta foi a primeira olimpíada a contar com homens e mulheres competindo.

Estes feitos só foram alcançados graças às batalhas travadas por mulheres desde o início da arte marcial. Elas travaram uma guerra difícil, que testou todos os limites físicos e psicológicos daquelas combatentes, com vitórias dignas das telas de cinema, seguidas por derrotas que pareciam serem impossíveis de reverter, mas o espírito combatente destas mulheres não deixou com que os homens vencessem no final.

Lenta Progressão da Liberdade Feminina no Esporte Brasileiro

 

Se no resto do mundo as coisas começavam a caminhar e a luta por espaço e reconhecimento se desenvolviam, no Brasil a resistência às liberdades das mulheres era ainda maior e os avanços aconteciam de forma lenta. O Jiu-Jitsu chega ao Brasil no início do século XX, mas era prática exclusiva de homens, somente sendo recomendados, assim como no Japão, os exercícios de autodefesa.

SERRANO 2014, p.78

No Gracie Jiu-Jitsu as mulheres são vistas praticando durante as décadas de formação do estilo que viria a se chamar atualmente de Jiu-Jitsu Brasileiro. Mas seu papel era limitado a demonstrações de auto-defesa, dando destaque quando a aluna era uma reconhecida figura da sociedade. Vale destacar que durante as décadas de formação deste estilo brasileiro de luta, não temos nenhum registro de competição ou programa de aula feminina para além da defesa pessoal.

Dois eventos são de fundamental importância para compreendermos a inserção lenta do público feminino ao esporte de competição, seja no Judô ou no Jiu-Jitsu. Como indica a jornalista Patrícia Maeda em seu blog na Carta Capital, Sororidade em Pauta, no artigo intitulado “A luta pela inclusão de todas as mulheres no esporte”:

É importante registrar que a história não é linear, mas sim constituída de pequenos avanços e recuos. Getúlio Vargas editou o Decreto-Lei 3199 de 14/04/1941 que previa textualmente no art. 54: Às mulheres não se permitiria a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo para este efeito, o conselho nacional de desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.

            Um decreto destes restringiu demais as mulheres a buscarem oportunidades de praticarem diversos tipos de esportes, principalmente as lutas, que de nenhuma forma eram vistas culturalmente e socialmente como algo próprio para uma mulher, pois na visão machista e patriarcal do período, ia contra a “natureza” da mulher.

O quadro não melhora nos anos seguintes, e durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985) outro decreto volta com as restrições dos tempos de Getúlio Vargas. Em 2 de agosto de 1965, o general Eloy Massey Oliveira de Menezes, então presidente do conselho nacional de desportos, com a deliberação número 7, delibera que “Não é permitida à mulher a prática de lutas de qualquer natureza, do Futebol, Futebol de salão, Futebol de praia, Polo aquático, Rugby, Halterofilismo e Baseball.”.

https://futfemdanoticia.wordpress.com/2020/04/04/pe-de-mulher-nao-foi-feito-para-se-meter-em-chuteiras/

Com dois decretos destes, ficou impossível termos lutas femininas durante uma boa parte do século XX aqui no Brasil. Estes decretos e políticas de segregação no esporte, fizeram com que gerações de potenciais lutadoras fossem legalmente impedidas da prática da luta. O Judô no Brasil, que desde os anos 1950 vinha em franco crescimento, inicia somente no final da década de 1970 um processo de abertura e desenvolvimento da categoria feminina, algo que fora do Brasil já acontecia há pelo menos duas décadas.

O Jiu-Jitsu Brasileiro é o último nesta corrida por inclusão

O Jiu-Jitsu Brasileiro vai ainda mais longe neste tipo de segregação, iniciando uma abertura total nos anos 1980 somente. Por mais que talvez algumas pessoas se lembrem de núcleos de mulheres treinando neste tempo, elas ainda eram muito parcas, digamos que quase ínfimas. Sem igualdade de oportunidades para homens e mulheres no esporte, somente podemos pontuar que o Jiu-Jitsu Brasileiro começa este processo em 1985, com a realização do primeiro campeonato feminino, ocorrido no Estadual do Rio de Janeiro.

Yvone Magalhães Duarte é uma das pioneiras do Jiu-Jitsu Brasileiro. Yvone vinha treinando Jiu-Jitsu desde 1978 na academia de Oswaldo Alves, que fez uma campanha para agregar mais mulheres e aumentar os pagantes, pois em sua visão as mulheres pagavam melhor.

Yvone e seu grupo de mulheres praticantes vinham batalhando para que a Federação do Rio de Janeiro abrisse o campeonato para a categoria feminina, pauta que só seria atendida em 1985. Yvone se graduou faixa preta em 1990 e participou de todas as competições femininas entre meados dos anos 1980 e início dos anos 1990.

https://guriasnotatame.wordpress.com/2014/06/10/yvone-duarte-primeira-mulher-faixa-preta-do-jiu-jitsu-brasileiro/


https://revistatrip.uol.com.br/tpm/yvone-duarte-kyra-gracie-karen-antunes-e-mikaele-damaceno-as-minas-do-jiu-jitsu-brasileiro



Quanto ao fato do primeiro campeonato ser este da Federação do Rio de Janeiro, no mesmo ano, 1985, ocorreu o Torneio Rio-Minas. Segundo Roberto Pedreira em seu livro “Choque: The Untold Story of Jiu-Jitsu in Brazil, vol 3” (Sem tradução para o português), neste torneio houve lutas femininas, o que faz com que este torneio também seja considerado pioneiro na inserção das mulheres nos circuitos competitivos do Jiu-Jitsu Brasileiro.

Em São Paulo, Patrícia Lage foi uma das pioneiras no Jiu-Jitsu. Patrícia começou a treinar quando criança, no início dos anos 1980, e aos 18 anos foi graduada à faixa preta. Muitas vezes é creditado a ela o título de primeira faixa preta do Jiu-Jitsu Brasileiro, mas para termos técnicos ela não foi a primeira, o que não faz diferença para a história desta grande atleta, que teve um pioneirismo no Jiu-Jitsu Paulista e em nível nacional.

O Jiu-Jitsu feminino começa a tomar corpo em meados dos anos 1980, aparecendo em algumas academias a proposta dos treinos femininos. Roberto Pedreira levantou em sua obra citada previamente, que Sylvio Behring havia formado uma turma feminina em princípios da década e que no ano de 1986, Rossene Gracie, filha de Reylson Gracie, apresentava o curso voltado para mulheres, com objetivo dar suporte técnico para que mulheres se defendessem da violência masculina.

As pioneiras do Jiu-Jitsu Brasileiro encontraram barreiras legais, como o das proibições das competições de lutas até os anos 1980, e resistências socioculturais à prática da luta, dentro das academias encontravam, além de uma baixa adesão feminina, um ambiente que por muitas vezes era hostil e até perigoso, em alguns casos, como discuti no meu livro anterior no tópico sobre a cultura machista nos tatames.

Nos anos 1990 o cenário do Jiu-Jitsu Brasileiro começou a abrir mais para as mulheres, algo ainda tímido em relação à sua luta irmã, o Judô, que nos anos 1990 já contava com um número considerável de lutadoras e praticantes. Mesmo quase na virada do século XX, o Jiu-Jitsu feminino ainda era uma questão tabu na sociedade, como podemos ver no conhecido programa da Rede Globo, Globo Repórter, no ano de 1997.

O referido programa abordava a temática das Artes Marciais, e o repórter anuncia:

“Já são mais de 100 academias na terra do Jiu-Jitsu. A maior concentração delas está no bairro de Copacabana. Aqui também está a única academia com uma aula aonde menino não entra... (diz o repórter enquanto a câmera o acompanha mudando de cômodo e a imagem adentrando uma sala cheia de mulheres conversando)”

A reportagem continua com a descrição do repórter sobre a atividade do Jiu-Jitsu. A seguir, são mostradas imagens de diferentes mulheres, em alguns momentos de seus rostos alegres, em seguida no tatame de quimono treinando:

“Típicas meninas da zona sul do Rio de Janeiro, jovens que acharam um lugar para treinar livre das paqueras. O Jiu-Jitsu é uma luta de chão, com muito contato corporal, só entre meninas, não provoca ciúmes nos namorados”

Leka Vieira em seguida é apresentada como professora desta turma e destaca os benefícios de uma turma exclusiva:

https://www.youtube.com/watch?v=_9dUimjJOL0


“A menina mermo(sic) não quer treinar com um homem, porque está naqueles dias e tal, ela treina só com as meninas e ela tem a liberdade de falar, olha não vou treinar hoje porque estou deste jeito... um homem não entende isto, acha que é frescura.”

A referida reportagem demonstra o espírito do Jiu-Jitsu Brasileiro feminino neste final de década, carecendo de mais academias e vivendo basicamente de núcleos específicos de aulas com turmas só de mulheres. Interessante ver na reportagem os elementos culturais abordados: a turma exclusiva como ferramenta para que os namorados não sentissem ciúmes, logo, as “deixando” treinar um esporte de contato corporal; o desconforto em falar sobre o próprio corpo com um homem (“um homem não entende isto, acha que é frescura”); o fato de deixar o corpo esteticamente bem...

Acredito que a divulgação do Jiu-Jitsu em um programa de rede nacional e com grande audiência, foi um passo importante para a propagação do Jiu-Jitsu feminino. Este pequeno trecho de uma reportagem de cerca de 2 minutos é um retrato do Jiu-Jitsu feminino entre os anos 1990 e anos 2000. Haveria ainda muitas barreiras para a sua consolidação nas décadas seguintes.

No meio competitivo, o Jiu-Jitsu feminino conseguia se firmar com alguns talentos individuais, como o da protagonista da reportagem do Globo Repórter. Alessandra Vieira, a “Leka”, lutadora que entre meados para o final dos anos 1990, se tornou um ícone do Jiu-Jitsu competitivo, protagonizando disputas acirradíssimas e com alto teor de rivalidade com Daniela Figueiredo Paiva, uma história que dá início a popularização do Jiu-Jitsu Desportivo Feminino no Brasil.

Não perca a terceira e última parte desta jornada, explorando a popularização, crescimento e futuro da arte do Jiu-Jitsu cultivado pelas mulheres.



FONTES:

JAEGER, Angelita Alice. Gênero, mulheres e esporteMovimento, Porto Alegre, v. 12, n. 01, p. 199-210, 2006.

MAEDA, Patrícia. A Luta pela Inclusão de Todas as Mulheres no Esporte. em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/sororidade-em-pauta/a-luta-pela-inclusao-de-todas-as-mulheres-nos-esportes/, 2019.

      MIZOGUCHI, Noriko The Paradox of the White Striped Judo Black Belt. JWCPE Departmental Bulletin Paper. P.27-35. 2020.

     SILVA, Gilese Passeri da. Histórico da Mulher no Judô, preconceitos, estereótipos e discriminação. R. Motriviv., Florianópolis, v. 1, n. 5, p. 195–207, 1994.

    

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