Waldemar Santana, a Resistencia do Jiu-Jitsu Afro Brasileiro
1950,
Rio de Janeiro, Estádio do Maracanã- Final da Copa do Mundo de Futebol- Brasil
vs Uruguai- Nunca houve maior público preenchendo o espaço daquele estádio,
aguardando ansiosos comemorar o primeiro título da Seleção Brasileira de
Futebol. O Brasil seria campeão, precisava só de um empate. Mas assim o destino
não quis.
O
atacante do Uruguai avançou, e não foi parado pelo zagueiro Bigode. Quase sem
ângulo, o atacante lançou a bola, e ela passou entre a trave e o goleiro, de
nome Barbosa. O que ficou conhecido como “Maracanazo”, foi uma das mais tristes
tragédias do esporte brasileiro, e o povo que sofria, sabia muito bem de quem
era a culpa, do zagueiro Bigode e do goleiro Barbosa, e o que eles tinham em
comum? Ambos eram negros.
Nesta
mesma cidade, quase que na mesma época do evento descrito, perambulava um negro
como Bigode e Barbosa, um baiano, que atendia pela alcunha de Waldemar Santana.
Já ouviu falar dele? Talvez você tenha ouvido falar que ele foi o aluno ingrato
da Academia Gracie, que expulso, desafiou seu próprio mestre. Ou que foi o
adversário de Hélio Gracie na luta mais
longa da história moderna, três horas e vinte cinco minutos! (e não três horas
e quarenta e cinco minutos, como comumente se publica), isso quando citado...
Negro
retinto, escuro como a noite, Waldemar vinha de Salvador, capital baiana, lugar
que no passado milhões de negros africanos desembarcaram nos portos. Trazidos a
força, corrente e chicote, somente o poder de sua ancestralidade africana fez
com que sobrevivessem ao inferno escravocrata. Da Bahia, Waldemar foi para o
Rio de Janeiro, localidade também forjada no passado do comércio negreiro,
buscar o sonho de ser um grande lutador.
Sonhar
em ser um desportista reconhecido era uma audácia para um negro nos anos 1950. A
lenda que circulava na época, era que atleta negro não era de confiança, vide
Bigode e Barbosa, pois quando pressionados, falhavam. E não era só nos esportes
que o negro era visto com desconfiança, na sociedade em geral os preconceitos
raciais eram tantos, que seria longa a lista de atitudes racistas comuns no
meio social. Foi nessa sociedade que Waldemar ousou ser lutador.
Um
negro lutador de Jiu-Jitsu? Isso era uma arte marcial praticada pela elite. A
Academia dos Gracie ficava no centro do Rio, na época capital do Brasil. Pois
não é que Waldemar ousou ser? Carregando em si os conhecimentos marciais da
capoeira, arte sim própria da raça negra, Waldemar ousou, e conseguiu se filiar
a Academia Gracie, mas é claro, para estar lá, ele tinha de ser roupeiro,
ajudante, auxiliar...
Um humilde roupeiro e ajudante de serviços gerais, que nas horas vagas aprendia a arte dos Gracie. Waldemar tinha chegado aonde poderia desenvolver seu potencial. Mas a Academia Gracie era um local frequentado por gente importante, chique, poderosa político e economicamente, e um homem preto circulando por seu espaço era visto como um alienígena.
Para
ser reconhecido naquele espaço, Waldemar tinha de lutar não só nos treinos, mas
fora deles também. A luta que tinha do lado de fora do tatame não para melhorar
suas habilidades técnicas, mas sim, para ser aceito como parte daquele
ecossistema social. O pacote completo da maestria do racismo a brasileira, que
neste tempo tentava esmagar qualquer espírito competitivo de um negro em busca
do seu espaço, era adversário diário de Waldemar em busca de seu sonho.
Mesmo
com os obstáculos racistas de sua era, Waldemar não foi parado. Na base da
força de vontade, determinação, talento, habilidade, preparo físico, e não
aceitação dos limites impostos a um homem da sua cor, Waldemar se tornou a
elite dos pupilos da Academia Gracie. Mas, disseram seus mestres, que assim
como Bigode e Barbosa, ele falhou...
Conta-se que Waldemar precisava de dinheiro, e sua melhor habilidade era as artes do combate. Um jornalista, de nome Carlos Renato, percebeu o potencial de Waldemar, e o incentivou a sonhar mais alto. Aquela joia esportiva merecia uma vida melhor. Qualquer lutador branco de nível mediano de seu tempo teria este direito, mas este era negado a Waldemar.
O “crime” de Waldemar foi ter a ousadia de aceitar uma luta, uma que lhe pagaria uma boa bolsa, mas a qual seus mestres não tinham o autorizado realizar. A pendenga foi esta, e Waldemar decidiu tomar os rumos da própria carreira. Um homem negro dono do próprio destino? Não era algo engolido naqueles tempos.
O que veio a seguir ao ato de “rebeldia”, pois todo negro que ousava era visto como um rebelde, do pupilo, foi a expulsão de Waldemar. Dizem que ele foi expulso aos xingamentos de: “Negro safado!”. Nada incomum de acontecer com um negro que não agisse como um subordinado, que não segue os ditames de um “superior”.
Expulso do lugar que deu o sangue para representar, Waldemar desafiou o antigo mestre nos jornais para mostrar seu ponto, e Hélio Gracie, o lutador mais afamado de seu tempo, sentiu sua honra afrontada pelo ingrato ex-pupilo. Decidiu-se por uma luta de quimono, sem tempo e sem regras, e sem valer um centavo para Waldemar. Hélio não emprestaria seu prestígio á Waldemar, seria uma batalha somente pela honra, uma espécie de julgamento por combate (instrumento jurídico da idade média) daquele tempo.
No pequeno ginásio da Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro, durante uma quarta feira a tarde do mês de maio de 1955, Waldemar subiu no ringue para enfrentar seu antigo mestre. Se apinhavam homens afoitos por uma boa briga, exprimidos em um espaço para no máximo mil pessoas, mais que naquela tarde tinha em seu recinto o dobro da capacidade do ginásio. Waldemar subiu ao ringue aos gritos de xingamento de um público que gostaria de vê-lo trucidado.
Antes do combate, seu antigo mestre, Carlos Gracie, havia dado um discurso, do qual destacava o mal que Waldemar havia feito com quem o acolheu. Dizia ele ao microfone, que a surra que Waldemar tomaria, seria uma lição para outros Waldemares... Palavras, que, segundo Waldemar, doeram mais que qualquer golpe recebido na luta que veio a seguir.
Fico
imaginando o clima que Waldemar enfrentou naquela tarde de quarta-feira.
Ofensas racistas eram a sinfonia daquele público, como descreve Nelson
Rodrigues:
“Um
sujeito louro, barrigudo e sanguinário falou, “negro boçal”. “Negro Boçal!” A
partir deste momento eu vi tudo... Direi que vi o retinto Waldemar não como “um
negro”, mas como “O Negro”.”
O
resultado vocês já devem ter escutado. Depois de mais de três horas de combate,
um exausto Hélio Gracie era arremessado ao ringue, quase desacordado, e
Waldemar, com a fúria que tinha dentro de si, lhe deu um ponta pé no rosto, o
qual deixou inerte e desfigurado seu antigo mestre. Poderia ser somente uma
luta, mas Nelson Rodrigues viu um significado a mais no duelo: “O que houve
anteontem na A.C. F foi a forra ancestral do negro contra o branco”.
No
outro dia, olhem isso, um lutador preto está na capa do jornal! Waldemar estampou
a capa dos jornais, algo raro para aquele tempo. Pela primeira vez na história,
um preto vestido de quimono era o destaque. Vocês podem conferir, não tinha
acontecido isto antes, Waldemar é o primeiro. Com certeza os negros como ele,
devem ter sentido orgulho ao ver estampado a melanina de sua raça na capa do
jornal.
As
manchetes e matérias elogiosas, escondiam em seu arcabouço, o racismo
estridente para com os desportistas negros daquele tempo.
“Abre
seus lábios negros para um sorriso melhor”
“Teve grande repercussão o desafio do “colored” Waldemar Santana ao campeoníssimo Hélio Gracie, para uma luta de jiu-jitsu ou “vale tudo”.”
Descreviam a cor de Waldemar, como se a própria foto do mesmo estampada na matéria não fosse suficiente para os leitores saberem a cor da sua pele. “Colored” um termo racista importado dos Estados Unidos, que seria algo como “de cor”, acompanha Waldemar em muitas destas matérias jornalísticas. Mas, seria a alcunha de Leopardo Negro, está sim elogiosa, que elevaria Waldemar a um outro patamar de atleta em seu tempo, e o mundo pode se abrir a sua frente.
É estranho Waldemar ser considerado vilão de uma história, que foi vista como um conto de ingratidão e vingança. Este homem ousou no seu tempo. Uma história de um atleta negro vencendo os obstáculos racistas, não deveriam legar o papel de vilão ao seu protagonista. Ele foi alguém que desafiou uma sociedade que rechaçava os negros ousados, e tentava mantê-los em um lugar, do qual muita gente ainda achava que eles não deveriam ter saído. Tem como ele ser o vilão?
Depois da luta contra Hélio, Waldemar teve o reconhecimento devido ao seu talento, mas, somente é descrito depois pelas guerras intensas contra seu antigo parceiro de treino, Carlson Gracie, sobrinho de Hélio, e que tinha ascendência afrobrasileira também, mas vinha de berço nobre.
Carlson teria vingado o tio ao vencer Waldemar no segundo confronto de
ambos, salvando assim o Gracie Jiu-Jitsu... As poucas imagens em movimento do “Leopardo
Negro” lutando contra o “Garotão” são uma obra de arte da galeria do Jiu-Jitsu
Brasileiro, mas escondem um significado muito além da técnica demonstrada por
ambos.
Toda
a essência guerreira que faz parte do DNA marcial do Jiu-Jitsu Brasileiro manifestava-se
no ringue quando esses dois se confrontavam, e não foram poucas vezes, quatro
vezes para ser mais preciso. Sem Waldemar não teríamos Carlson Gracie, na luta
não existe uma dança solo, logo, ambos foram agentes históricos da
afrodescendência abrasileirando o Jiu-jitsu.
Por
muito tempo a incrível história da resistência de Waldemar não era lembrada.
Mas veja só, a principal técnica de projeção no Jiu-Jitsu Brasileiro, é chamado
de “Baiana”, homenagem ao baiano Waldemar! De certa forma, ele acabou
eternizado nesta arte marcial, algo justo para com o primeiro atleta negro a
ganhar destaque vestindo um quimono.
Quando penso em Waldemar, não consigo enxergar o vilão, mas sim um herói da negritude brasileira, não só do Jiu-Jitsu, e sim do esporte em geral. Edson Arantes, o Pelé, despontaria aos dezessete anos na Copa de 1958, e se tornaria o nos anos seguintes “O Rei do Futebol”, botando assim, uma pá de cal no preconceito que os negros não eram de confiança, mas antes dele Waldemar já havia demonstrado isto.
É muita luta que tinha Waldemar, não só técnica e física, ele tinha dentro de si o espírito guerreiro que guiou os negros e negras revolucionários ao longo da história. Waldemar enfrentou no peito e na raça todo preconceito e racismo da sociedade de seu tempo. Se isto é ser um vilão, não faço ideia do que seria um herói então...
A
profecia de Carlos se cumpriu ao contrário, pois houveram muitos outros
“Waldemares”. A negritude conseguiu chegar lá! O elemento afrodescendente é
parte integrante desta arte marcial. Para isto acontecer, alguém teve de botar
a cara para tomar porrada e enfrentar os obstáculos que se impunham à sua raça,
e quem fez isso foi Waldemar Santana, o herói da história do negro no Jiu-Jitsu
Brasileiro.
Fontes
pesquisadas:
https://www.portaldovaletudo.com.br/waldemar-santana-o-leopardo-negro/
Canal
Portal do Vale Tudo: Filha de Waldemar Relembra a história e legado do pai. 28/10//2020
https://www.youtube.com/watch?v=xk5hhTMwtbs
O
Livro Proibido do Jiu-Jitsu: A História que os Gracie não contaram. Volumes 3 e
4. Marcial Serrano, 2013.
Documentário
O Negro no Futebol Brasileiro. Direção Gustavo Accioli, 2018. Acessado no streaming
Globoplay.
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