Faixa Preta: Licença Para Falar Besteira



Em um programa de Podcast, um faixa preta, multicampeão no esporte, explana durante 15 minutos impropérios dos mais diversos sobre a sociedade que nos circunda, destilando sem qualquer tipo de receio, sua profunda ignorância e preconceito acerca dos problemas socioeconômicos do país em que vive. E isso por si só seria ruim o bastante, mas, para piorar a situação, encontramos até mesmo quem reverbere este tipo de atitude, simplesmente por vir de quem vem, um mestre renomado, e que ostenta títulos e uma faixa preta cheia de graus na cintura. 

O caso que descrevi de forma anônima, não é um caso isolado. Qualquer dia da semana, a qualquer hora do dia ou da noite, na tela de seus celulares, vocês podem encontrar as pencas faixas pretas especialistas em assuntos diversos, falando bobagens mil. É como se o fato de ser um especialista em uma arte marcial, lhe desse salvo conduto para opinar sem filtro nenhum, qualquer assunto dentro da sociedade. 

E não pensem que somente encontramos homens representando a ignorância disfarçada de sabedoria de mestre, há mulheres que acompanham a tendencia. Vocês também podem encontrar, com menos frequência, vale ressaltar, mulheres faixas pretas que se sentem no poder de ser a voz de toda a razão, dissertando sobre assuntos das quais elas muitas vezes se querem pararam para se orientar, mesmo que um pouco, reproduzindo assim, a tradição dos homens faixas pretas em falar bobagens. 

A autoridade da faixa preta se torna um passe livre para falar besteira, para opinar sem pesquisar, para se expressar sem receio de ofender, para dizer o que pensa, da maneira que pensa, e sem qualquer tipo de filtro ou reflexão no processo. E como plateia, encontramos uma comunidade em que boa parte dela prefere se manter em silencio, fingir que não viu, e disfarçando que ouviu, para assim, continuar a sua devoção idólatra destes\as mestres. 

Tenho que ser justo, nem todo mundo se cala diante do absurdo. Fui aos comentários do vídeo que citei no início deste texto, e lá, encontrei muito mais gente criticando do que elogiando. Mesmo assim, o conforto e segurança da distância de uma tela ajudaram aqueles espectadores a vociferarem contra o preconceito e ignorância que o faixa preta proferia, mas, muitas vezes, essas vozes são somente virtuais, não reverberando comunidade física que habitamos. 

Minha sugestão é que sejamos menos complacentes com as besteiras que saem da boca de quem admiramos pela capacidade e habilidade artístico marcial. Para mim, basta entender as limitações que qualquer ser humano tem, muitas vezes carecendo de conhecimentos fora do contexto marcial, e até mesmo equivocado dentro deste próprio universo. Por fim, meu manifesto é que: Uma faixa preta na cintura não deve ser um passe livre para falar besteira. 


 

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