Guerreiras e Heroínas da Saga do Jiu-Jitsu Feminino Parte 1
Guerreiras e Heroínas da Saga do
Jiu-Jitsu Feminino
Por
Diego Colino & Luana Gurther
Muitas
vezes não nos damos conta do quão minimizada é a participação feminina no
esporte, sim, invariavelmente, isto se dá devido a um acúmulo de perspectiva
masculina da arte marcial, algo que vem desde seu berço originário. Para
compreendermos a inserção tardia das mulheres no Jiu-Jitsu Brasileiro, temos
que compreender a resistência histórica ao esporte feminino.
Proibidas de Competirem -
dos Jogos Olímpicos Antigos até os Modernos
Na Grécia Antiga, berço dos Jogos Olímpicos,
era proibido à mulher participar das Olimpíadas, sendo vetado até mesmo que
elas assistissem aos jogos, pois o esporte era visto como incompatível com a
beleza e delicadeza feminina. Que ruim era na Grécia Antiga, não é? Pois
acredite, este discurso vindo de séculos antes de Cristo persistiria até os
jogos da era moderna.
Na restauração dos Jogos Olímpicos da
era moderna, em 1896, idealizada pelo Barão de Coubertin, não houve categoria
feminina, pois, conforme nos conta Jaeger (2006, p. 205), na visão de seu
idealizador “...os jogos serviam para coroar a masculinidade, erigida a partir
da força, da virilidade e da coragem demonstradas pelos homens na prática
esportiva. Assim, em 1896 acontece em Atenas os I Jogos Olímpicos da Era
Moderna, onde as mulheres foram proibidas de participar.”. Em insubordinação,
uma mulher maratonista, a grega Stamata Revithi, realizou a prova do lado de
fora do estádio em protesto à proibição das mulheres competirem.
As Olimpíadas aos poucos foram
inserindo as mulheres, primeiro, como eventos testes e, depois, em cada uma de
suas edições acrescentando aos esportes que já faziam parte do programa
olímpico a categoria feminina. Como podemos notar, as mulheres foram
discriminadas da prática esportiva por praticamente toda a história de formação
dos esportes, isso que ainda falamos somente de esportes coletivos, nos
esportes de combate a resistência foi ainda mais longa.
As Mulheres Samurais
O Jiu-Jitsu nasceu no Japão e é
herdeiro das tradições e técnicas dos Samurais. As mulheres, que enquanto grupo
social, não participavam dos esforços de guerra e nenhuma podia ser Samurai,
pelo menos com a titulação e posição social. Mas temos alguns raros casos de histórias
de mulheres participantes das atividades samurais, a mais notável delas foi sobre
Tomoe Gozen, uma mulher que se tornou general e que lutou e venceu várias
batalhas durante o período mais turbulento da história do Japão.
https://hanasu.com.br/onna-bugeisha-as-mulheres-samurais/
Segundo
Nowak (2013), as mulheres guerreiras existiram no Japão Feudal. Conhecidas como
Onna-Musha, viviam com a cultura de guerrear e com as tradições de adquirir
habilidades nas artes marciais, arquearia e montaria em cavalo. Essas mulheres
eram essenciais nas defesas dos castelos e da família dos Samurais, sendo suas
habilidades indispensáveis em um período de turbulência e caos social.
Serge
Mol (2011) diz que em boa parte do período Edo (1603-1863) somente esposas,
filhas e mulheres da realeza, tinham aprendizado de artes marciais, chamado de
Onna Yawara (Jujutsu feminino), algumas, inclusive, se tornaram muito versadas
nestas artes, mas, pontua o autor, estas eram as exceções e não a regra. Apenas
no período Meiji (1863-1912), com a modernização do Japão, ampliou-se o ensino
de artes marciais para o publico feminino.
Os
primeiros núcleos de escolas voltadas para mulheres no Japão
Inicialmente,
as mulheres não podiam usar a indumentária masculina. Elas se diferenciavam com
uso do quimono feminino destinado a mulheres solteiras, quimono este que tinha
mangas muito longas e era amarrado com cordas para que ele não atrapalhasse os
movimentos. Somente anos depois foi permitido que usassem o mesmo tipo de
vestimenta dos homens na prática da luta.
No Japão do final do século XIX e
início do XX, a presença de mulheres praticando artes marciais foi se
ampliando, como exemplo, a prática das artes marciais foi instituída em algumas
universidades femininas nesse período. No Judô Kodokan a abertura de espaço
para as mulheres também começou a acontecer.
Uma
história interessante é sobre uma das primeiras alunas da escola. Jigoro Kano
treinou uma aluna reservadamente em 1904, de início ela teria feito somente
exercícios de Kata e exercícios leves, nem quimono ela podia usar. Após um mês
de prática ela teria sido examinada para ver se a integridade física não tinha
sido alterada ou danificada e somente após o exame é que foi liberada para
exercícios mais fortes.
No Japão, a primeira turma feminina
oficial da Kodokan fora formada em 1923, chamada de soshibu (divisão feminina),
ou seja, 40 anos depois da instituição ter sido criada. Em 1926 esta divisão
foi oficializada e trabalhada como um ramo do Judô Kodokan. De início, boa
parte dos treinamentos eram vedados a elas, como, por exemplo, a prática do
combate, que era o Randori (treino livre, ou o “rola” do Jiu-Jitsu Brasileiro).
As
mulheres na Kodokan ficavam exclusivamente fazendo exercícios de Kata
(exercícios pré-combinados, como os de defesa pessoal) e se diferenciavam em
graduação com uma tira branca no meio da faixa, que simbolizava a “pureza”. Esta
faixa diferenciada, que hoje representaria algo discriminatório, foi estendida
até 1999.
Keiko Fukuda, uma das pioneiras do Judô feminino, resume o quanto a organização desprestigiou sua trajetória na arte marcial:
“A
Kodokan foi antiquada e sexista a respeito das classificações das faixas, eles
apenas decidiram que as mulheres não precisariam de nenhuma graduação além do
quinto dan. Eu fui quinto dan por trinta anos..."
Koshi Kozaki, a mulher que venceu
homens pela sua faixa preta
O Judô Kodokan não
foi a primeira instituição a abrir espaço para as mulheres. Antes da Kodokan, a
organização governamental Dai Nippon Botuku Kai, fundada em 1895, já havia
aberto espaço para que as mulheres aprendessem Jiu-Jitsu/Judô junto com os
homens, o que destoava do protocolo da Kodokan.
Uma incrível história é a da
primeira graduada da Dai Nippon Botuku Kai, Koshi Kozaki. Kozaki nasceu em 1908
e iniciou seus treinamentos no Jiu-Jitsu aos dezenove anos. Ela se esforçou
muito e ganhou o respeito de seus superiores, mas faltava o reconhecimento da
graduação à faixa preta, assim como de seus companheiros de treino.
Kozaki se inscreveu na prova de
promoção de faixa através de combate, e neste desafio venceu três homens, se
tornando assim, a primeira mulher faixa preta em Judô/Jiu-Jitsu no Japão. Noriko
Mizoguchi, autora da tese que revela a história desta pioneira, teoriza que o
feito de Kozaki teve pouca mídia, pois a promoção dela, vencendo homens, derrubava
a teoria de conceito de gênero da época e quebrava a aura da dominação
masculina.
A graduação de Kozaki fez com que a
Kodokan tivesse que instituir a graduação para suas judocas também. Kozaki
subiu as graduações na Dai Nippon Botuku Kai e foi graduada pela Kodokan
posteriormente. Ela foi líder do seu próprio dojo, fundado em 1935, na cidade
de Osaka.
Até
aqui você deve estar ansiosa(o) para saber: e no Jiu-Jitsu Brasileiro? Calma,
nós vamos chegar lá. Acontece que todo este caminho é importante para
entendermos o que ocorreu com o Jiu-Jitsu no Brasil, até porque neste tempo os
professores da Kodokan estavam começando a sair do Japão e difundir a arte,
logo, levavam ainda estes conceitos de como a luta deveria ser ensinada para o
publico feminino. Outra noção muito importante é a de que o mundo se
transformava neste princípio de século e a luta pela libertação feminina na
sociedade ainda estava em curso e influenciava os esportes.
Judô
no ocidente, as Sufragistas e seu Sufrajitsu
O Judô saiu do Japão e começou a
ganhar o mundo. Na Europa foi onde o Judô/Jiu-Jitsu encontrou terreno mais
favorável à inclusão das mulheres. Na Inglaterra do início do século XX, os
pioneiros da arte neste país já ensinavam grupos de mulheres, um projeto
pioneiro, pelo qual os professores tinham muito orgulho de suas alunas,
conforme assinala Taro Myake ao descrever a capacidade de suas alunas:
As
mulheres inglesas, eu acredito que elas aprendem muito mais rápido que os
homens. Eu tenho mais de uma mulher como pupilo que é especialista, e para
acrescentar, eu lamento por qualquer um que ataque uma delas agora. (Sunday
Times, Sydney, 3/09/1905)
Em
1906 Emilly Watts lançou o livro “A Fina Arte do Jujutsu” (tradução livre) no
qual demonstra técnicas de defesa pessoal do Jiu-Jitsu. O livro de Emilly Watts
pode ser considerado o primeiro instrucional feito por uma mulher. Um detalhe
interessante é que o livro em nenhum momento se propõe a ser um guia exclusivo
para mulheres, algo que o coloca ainda mais no esteio pioneiro de um
protagonismo feminino, em um tempo em que os direitos das mulheres na sociedade
eram muito limitados.
Na
esteia deste guia que foi o primeiro, temos no Japão um guia de defesa pessoal
feminina também, este publicado em 1914, escrito por Nobatake Yeko, usando o pseudônimo
de Nobata Showa. Este guia tinha como objetivo auxiliar na auto defesa das
mulheres ante o aumento da violência dos homens contra elas na sociedade
japonesa. Nobatake Yeko e Emmily Watts estavam oceanos de distancia separadas
geograficamente, mas unidas em um mesmo ideal diante aos desafios das mulheres
nas sociedades que viviam.
Outra
pioneira importante deste período foi Eddith Garrund, ela tem grande importância histórica para as artes
marciais. Eddith foi integrante do movimento das Sufragistas, que no início do
século XX lutavam pelo direito ao voto, liberdades individuais e equiparação de
direitos e oportunidades entre homens e mulheres na Inglaterra. As
participantes do movimento eram duramente reprimidas pelas autoridades, sendo
constantemente agredidas e presas violentamente pela polícia.
Eddith,
foi versada no Jiu-jitsu pelo primeiro núcleo do país de ensino da arte marcial
japonesa. Garrund tinha dentro do movimento a função de ensinar auto-defesa e
proteger as participantes do movimento nos protestos. O grupo de mulheres que
se protegiam com golpes de jiu-jitsu, chamava a atenção da imprensa e ficaram
conhecidas como as “Sufrajitsu”.
https://bartitsusociety.com/the-suffragette-that-knew-jiu-jitsu/
E no Brasil? Chegaremos lá na próxima parte desta série. Exploraremos a trajetória das lutas pelo direito pleno as artes marciais travadas pelas brasileiras, não antes sem conhecer a responsável por uma mudança de paradigma de um esporte que por muito tempo resistiu a dar espaço para as mulheres. Tudo isto na parte dois da saga das guerreiras e heroínas do Jiu-Jitsu Feminino.
Fontes:
SILVA, Gilese Passeri
da. Histórico da Mulher no Judô, preconceitos, estereótipos e
discriminação. R. Motriviv., Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, [Volume
- SE DISPONÍVEL], [Número - SE DISPONÍVEL], p. 195-207, [Ano da Publicação - SE
DISPONÍVEL].
JAEGER, Angelita
Alice. Gênero, mulheres e esporte. Movimento, Porto
Alegre, v. 12, n. 01, p. 199-210, 2006.
NOWAKI, Rochelle. Women Warriors of Early
Japan. HOHONU, University of
Hawai‘i at Hilo, v. 13, [Página inicial e final - SE DISPONÍVEL], 2015.
MIZOGUCHI,
Noriko. Nascimento do judô feminino - Análise do mito Kodokan. [Ano
da Defesa]. [Número de Folhas - SE DISPONÍVEL]. Tese (Doutorado em [Área do
Doutorado]) - [Instituição onde a Tese foi defendida], [Cidade da Instituição],
[Ano da Defesa].


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