Bom Mesmo era o Jiu-Jitsu de Antigamente?

 



    “Ah, no meu tempo que era Jiu-Jitsu de verdade!”. Essa frase fictícia é inspirada na boa realidade dos saudosistas do “Jiu-Jitsu das antigas”. Estes saudosistas são compostos geralmente por mestres e praticantes que viveram seus auges durante décadas há muito passadas e juram de pé junto que no tempo deles era melhor, será que era?

    Bom, eu não sou tão suspeito assim para falar de coisa antiga, afinal, estou na faixa final dos trinta anos, e acompanho este esporte há pelo menos vinte e cinco anos, logo, não sou tão “novinho” a ponto de não ter vivido estes “auges” do Jiu-Jitsu que tanto se fala e vou lhes dizer se realmente era melhor.

    Vejamos, “melhor” é uma concepção bem particular e arbitrária, o que é melhor para você pode ser péssimo para mim e vice e versa, mesmo assim, vamos tentar pensar em um denominador comum sobre o que é melhor ou pior para o Jiu-Jitsu como arte marcial, começando por analisar qual foi a melhor geração da história.

    É bem possível que quem viveu o auge do Jiu-Jitsu na zona sul carioca nos anos 1980 e 1990, diga que nunca houve melhor grupamento de talentos na história desta arte marcial como naquela época. Mas, quem perambulou pelos mundiais do Tijuca Tenis Clube na década de 2000, dirá que melhor que aquela geração nunca mais ocorrerá. Pode ser ainda que para quem assistiu o Jiu-Jitsu internacionalizado, nos mundiais dos anos 2010 na Walter Pyramid, em Long Beach, California, os maiores clássicos da história aconteceram nesse tempo...

     Para quem acredita estar assistindo esta decadência, pensemos se realmente as coisas pioraram tanto assim nos últimos anos.Perceba, em todos os períodos, o Jiu-Jitsu teve seus ídolos, teve seus clássicos, houve o crescimento da arte marcial, inventaram e reinventaram elementos técnicos, e mesmo assim, tem quem veja o passado como glorioso e o presente como decadência. Para quem acredita estar assistindo esta decadência, pensemos se realmente as coisas pioraram tanto assim nos últimos anos.

    Até agora só falei sobre o palco do espetáculo, as técnicas, os combates, as disputas esportivas do nível mais alto do esporte, mas existe um mundo além deste do espetáculo. O mundo do Jiu-Jitsu é feito no dia a dia em milhares de academias ao redor do globo, e será que estas academias do contemporâneo pioraram quando comparadas com as dos tempos antigos?

    Pelos números de profissionais e público atingido no presente do qual me reporto, diria sem medo que não, antigamente não era melhor. As academias estão muito melhores em vários níveis do que eram no passado, isso é difícil de contestar.  Alguém pode dizer: Mas dinheiro não é tudo... Sim, concordo, então seria, em razão dos ganhos financeiros a cultura das academias piorou nos últimos anos?

    Em geral, falando de maneira particular, as academias que frequento atualmente são infinitamente melhores do que meu eu juvenil lá nos anos 2000 frequentou. E se fosse listar os itens, acredito facilmente que a maioria deles eu marcaria como melhores que no passado. Ou você está com saudade dos tempos em que só haviam nas academias homens viris e casca grossas? E que assim como um apartamento de homens juvenis, tudo era uma bagunça? Ou será que é saudade de treinar sem quimono vestido só de sungão da Bad Boy? Mas deixemos de lado essa ampla dimensão e nos concentremos somente no tópico inicial, a técnica em si.

    Nostalgia já foi tratada como doença psiquiátrica, batizada com este nome a partir de duas palavras gregas: nostos (volta para casa) e algo (dor). A nostalgia jiujiteira é esta dor de não volta para casa, que pode ser uma academia do passado, um ginásio, ou de assistir ao melhor combate de sua vida, revivendo momentos tão bons que gostaríamos que não tivessem acabado.

    Pesquisas diversas concluem que nosso gosto musical é formado por volta do final da adolescência até princípios da vida adulta, depois, detestamos quase tudo que aparece de novo. Com o Jiu-Jitsu pode ser isso também, com nossas memórias afetivas ligadas diretamente a estes tempos passados, no qual nosso corpo era outro, a cabeça era outa, e o mundo era outro, e na maioria dos casos, visto como muito melhor.

    Eu, particularmente, não sou entusiasta das músicas do presente, acho a cultura do algoritmo mais nociva do que positiva, e que caiu muito a qualidade artística em vários ramos, mesmo assim, não consigo achar que realmente o passado que cresci era melhor que o presente. 

    Morro de saudade de ligar a tevê na Sportv e assistir ao “Passando a Guarda” apresentado por Jorge Guimarães, o “Joinha”. Eu cresci assistindo Jiu-Jitsu através desse programa, e até hoje me dou um momento nostálgico assistindo às reprises, mas ainda acredito que o presente apresenta um cenário bem mais rico do que era apresentado naquele singelo programa de tempos em tempos. Tudo bem, tem gente que concorda que o acesso está realmente melhor, e que acredita que o problema, na verdade, é esta geração que é “fraca demais...” Será mesmo?

    É natural que olhemos uma nova geração que não encontra os imensos obstáculos que em tese superamos, e a julguemos mais fraca por isto. Não é fenômeno recente a geração antiga apontar a fraqueza da nova. Ih... isso é cíclico, é um museu de novidades apontar a fragilidade da geração do presente em relação a do passado, e, no final, nem é isto.

    Olhe atento ao que está acontecendo hoje, dê uma rápida olhada, e garanto que encontrará lutadores(as) tão talentosos(as), esforçados(as) e determinados(as) quanto no passado, só que eles(as) têm uma cultura bem diferente dos ídolos que as gerações anteriores costumaram admirar. 

Vejo que a nova geração do Jiu-Jitsu não é mais fraca que as anteriores, só vivem em outro momento, com outras possibilidades e instrumentos, e garanto a vocês, que talvez muitos deles(as) irão no futuro cair nesta mesma seara de criticar a geração que os sucederá.

Os extremos são sempre perigosos, assim como nem tudo no passado é arcaico, e com convicção lhes digo que reside muito conhecimento nos tempos antigos, tão pouco acho que tudo no presente é frágil e de pouca qualidade. Minha sugestão é dosar a mão na hora de criticar, tentar observar bem, e na melhor das hipóteses unir todo conhecimento marcial útil, seja do presente ou do passado.

    Não tem problema gostar de Jiu-Jitsu antigo, é normal nos apegarmos ao melhor momento pessoal que tivemos, mas, meu convite é para refletir se essa visão é real ou fabricada pela nostalgia? Pense bem, pode ser que você somente esteja fugindo da ordem natural da vida, a de que tudo muda, e, em algum ponto, nosso melhor momento fica para trás.





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