Será que Ele é? Craig Jones e a Quebra do Paradigma da Macheza
O lutador faz a tão esperada entrada
na arena que ocorrerá o evento do UFC Fight Pass. Por anos nos acostumamos a
assistir a cobertura da chegada dos lutadores do Main Event do UFC, cada um com sua pose, cada um com sua atitude
confiante. O lutador desce do carro acompanhado de um homem que deve ser seu
parceiro de treinamento e, no meio de sua caminhada, agarra sua mão e desfilam
de mãos dadas até o vestiário. Ele é ninguém menos que o lutador que vem
desafiando o status quo da masculinidade no Jiu-Jitsu, ele é Craig Jones.
Não bastasse a entrada do UFC Fight Pass ou a rash guard com a frase: “Keep Jiu-Jitsu Gay” (Mantenha o Jiu-Jitsu Gay), Craig na última semana decidiu subir a aposta. Em uma publicação no Instagram, o lutador aparece sorridente ao lado do ex-lutador do Ultimate Fighter e modelo, Luke Rockrold, os dois lambuzados de óleo e com um detalhe chocante, ambos estão com as mãos dentro das calças um do outro! Esta “brincadeira” suscitou os sentimentos mais diversos na comunidade da luta, gerando uma enxurrada de comentários nas páginas em que a foto foi divulgada.
“Nós da velha guarda vendo isso nos perguntamos onde chegou o mundo, e o Jiu-Jitsu, essa geração Nutella e Dananoninho onde tudo pode nada pode falar e fazer!!!”, “Essa foi a coisa mais estranhamente escrota e ridícula que já vi nesses últimos 10 anos de internet”, “Estamos removendo sua foto pelo excesso de viadagem nela”, esta vinda de um perfil verificado, e por aí vai...
Em uma cena usada como meme, um idoso vestido com roupas de moda country observa outro idoso vestindo o mesmo estilo que ele rodopiando em uma dança. A desenvoltura solta de seu semelhante provoca no idoso um olhar abismado e indignado. Na versão de Jiu-Jitsu do meme, o idoso rodopiando seria Craig Jones e o idoso indignado os Faixas Pretas da Velha Escola.
O
lutador australiano vem dançando livre e solto pelos tatames, colecionando
cenas fantásticas com sua performance empolgante e finalizadora, ganhando assim
um status elevado dentro deste universo. Mas fora dos confrontos, sua postura
destoa do que costumamos ver em um lutador. Nada de cara feia ou ostentação de
seu poder masculino, as peças de Jones são feitas de muito humor ácido
provocando o paradigma da “macheza”.
Craig
Jones tem sido notícia por rivalizar com o evento de luta de grappling mais
forte do planeta, a ADCC. Mas parece que as mãos por dentro da calça são a
principal preocupação do público brasileiro. Pouco importa que Craig e Luke
participavam de uma atividade cultural, na qual experimentaram um estilo
tradicional de grappling turco, em que se segura com as mãos por dentro da
calça para dominar o oponente, o público brasileiro prefere usar seu radar para
criticar quem ousa quebrar o código viril da arte.
Será que ele é? Parece que o verso da marchinha de carnaval ainda ressoa na mente do público masculino do Jiu-Jitsu que acompanha Craig Jones, indignando homens que acostumaram a conviver com grupamentos massivamente composto por iguais de seu sexo, que experimentam nestes mesmos ambientes brincadeiras semelhantes ou até mais pesadas que a da foto de Jones.
Atingindo diretamente o sistema nervoso central da hipermasculinidade do Jiu-Jitsu, Craig Jones tem feito estrago em desmistificar a virilidade hétero do lutador campeão. Se o lutador australiano irá conseguir vencer a queda de braço com o ADCC, não temos como saber, mas parece que o paradigma da macheza pode ser dividido em Antes de Craig Jones e Depois de Craig Jones.

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