É a Hora dos Lutadores Justiceiros?

 



    O ano é 2023, e em vídeos circulantes nas diferentes redes sociais, aparecem lutadores, a maioria já consagrados e vivendo sua terceira idade, conclamando os lutadores a proteger o bairro de Copacabana contra a violência urbana. As convocações nas redes, geraram uma turba de homens, a maioria jovens, a avançar pelas ruas deste bairro que fica na zona sul carioca, aonde iam “caçando” marginais, que segundo eles, por serem menores de idade, seriam apreendidos e soltos em seguida. Neste caso, as artes marciais estão ajudando a combater a violência urbana?

    Vejamos, este problema de violência urbana é um caso recente? Não, na verdade, é tão antigo quanto o tempo de ascensão dos lutadores que conclamaram os lutadores a lutar pela defesa do bairro. Talvez inspirados em filmes de ação oitentistas, como Desejo de Matar, estrelado pelo já falecido Charles Bronson, estes senhores viram como solução para a violência urbana crescente no bairro, usarem seu poder de combate contra o crime, retornando assim, a um passado parecido com o do filme.

Se voltarmos para o ano de 1992, tempo que o Brasil ainda dançava Lambada, veremos o mesmo caos urbano explodindo no mesmo local que no presente. Solução encontrada na época, a manchete de jornal indica: “Lutadores da Zona Sul formam milícia contra os arrastões”. Na foto que estampa a matéria, vemos um grupo de homens jovens, sem camisa, alguns com calça de quimono, com punhos cerrados ao alto e evocando seu lado guerreiro aos gritos. Parece que não foram estas “milicias” que resolveram de vez a situação da violência.

    Se avançarmos para 1998, durante uma reportagem do Documento Especial da Band: “Os Pobres Voltam a Praia”, uma matéria que mostrava os diferentes nuances da mistura de classes sociais nas praias da Zona Sul, um dos entrevistados responde sobre a violência trazida desta reunião de classes: “Se um Arrastão vier aqui no Pepe ele vai ser arrastado, porque aqui estão os melhores lutadores entendeu?... O dia que começar a fazer que nem enxame de abelha aqui, vai acontecer o contrário, um enxame de abelha (sic) de lutador vai vir (sic) em cima deles”. Parece que não foram estes lutadores que extirparam de vez os arrastões.

    Em 2015, também encontraremos a classe dos lutadores se organizando como defensores dos bairros da Zona Sul, assolado neste tempo também pelo descontrole da segurança pública. Há um ano das Olimpíadas do Rio, os chamados arrastões, termo criado lá nos anos 1990, voltara a ocorrer nos bairros que deveriam em tese ser totalmente seguros, mesmo que ao redor deles o caos urbano e miséria reinem. Mais uma vez os lutadores voltaram a sua defesa do bairro...

    Como se vê, mais de trinta anos se passaram, mas parece que retornamos ao mesmo cenário, com os mesmos atores, e com as mesmas soluções de cena. Seriam mesmo os lutadores responsáveis pela defesa dos cidadãos? Teriam eles a força e o poder de sanar um problema recorrente há mais de três décadas? Bom, eu particularmente não acredito nisso. Para mim, a solução da violência urbana passa por processos muito mais complexos que o simples formar de patrulha de homens habilitados em combater corpo-a-corpo.

    Não convivo com este caos urbano para condenar a indignação de seus moradores. Mesmo assim, me baseando na ciência da história, não vejo em nenhum ponto da trajetória do homem em meio urbano, ações que findam em linchamentos públicos de cidadãos, sem o tratamento da lei, como solução definitiva para se alcançar a paz desejada.

    Minha impressão desta situação fica na frase Poeta Cazuza: “Vejo um museu de grandes novidades”.

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