True Crime Brazilian Jiu-Jitsu: Quando a Arte Marcial Encontra o Crime
As
páginas policiais trazem uma manchete: “Lutador de Jiu-Jitsu...”. Como é bom
para um jornalista ter na mão uma arte marcial para estampar uma manchete.
Recentemente um caso envolvendo um lutador de Jiu-Jitsu, realmente um lutador,
como discutirei a seguir, reascende esta dinâmica de relacionar a arte suave
brasileira com o crime.
Erberth
Santos teve uma ascensão meteórica no circuito profissional de Jiu-Jitsu, no
seu auge, entre os anos de 2015 á 2017, seu nome figurava entre os melhores
lutadores do mundo. Com um estilo explosivo e implacável, Erberth levantava
estádios contra sua persona, transformando-se em um dos maiores vilões da
história recente do Jiu-Jitsu Brasileiro Desportivo.
Dando
um salto no tempo, estamos em agosto de 2023, Erberth Sanos, já distante de seu
auge, é convidado para realizar seminários em um estado afastado dos grandes
centros do Jiu-Jitsu, Mato Grosso do Sul. Mesmo distante, o estado pantaneiro
tem uma comunidade ativa e vibrante da arte suave, e estava realmente
interessada na visita do “Lobo”, apelido que Erberth diz ter adotado por conta
das vaias recebidas em ginásios ao redor do mundo.
Eu
sou um simples produtor de conteúdo de entretenimento para a comunidade do
Jiu-Jitsu local, e vislumbrei na visita de Erberth, uma chance de entrevista-lo
para o Podcast que produzo e atuo como um dos apresentadores. Meu objetivo artístico era
conseguir uma entrevista com uma das figuras mais controversas da história da
arte suave. Com este intuito, viajei da capital, Campo Grande, até a cidade em
que daria o seminário, Aquidauana, em uma missão que batizamos de “Missão Lobo”.
Chegando na cidade, fui direto a academia em que aconteceria o seminário, com a missão de convencer o “Lobo”, que ao primeiro contato se mostrou resistente ao convite. Chegando lá, Erberth não havia ainda chegado para seu compromisso, algo comum, ainda mais se tratando dele. Quando estava no vestiário me trocando, o organizador do evento me comunicou que ele não viria, perguntando se assumiria o seminário no lugar dele.
Topei
na hora o convite, e fiz o seminário no lugar dele. Depois do seminário, pude
conversar com um dos organizadores, e fiquei sabendo melhor como estava o
comportamento de Erberth na cidade. Errante, sem paciência, e com pouco
diálogo, Erberth parecia perdido em si mesmo, me dissuadindo a tentar
entrevista-lo. Não senti que aquele homem estava com algum centro para produzir
algo bom, dando assim a “Missão Lobo” por encerrada.
Dois
dias se passaram desde a tentativa falha de encontra-lo, eis que acordo com
mensagens aterradoras sobre o comportamento do personagem que busquei
contatar. Na tela de milhares de celulares, era compartilhado o vídeo um homem
praticando um crime. Com um sobretudo, um sujeito alto e careca andava por uma
pequena sala com um sofá, ameaçador em seu caminhar, segurando uma longa faca,
revirando tudo que havia na sala, a cena parecia produzida para algum filme de
terror, mas era vida real, e a imagem não mentia, era ele mesmo, Erberth
Santos.
As
notícias se espalharam, e cresciam a cada novo detalhe revelado. Em seu Tour, o
qual classifico como um mergulho ao inferno do seu próprio ser, Erberth
transitou por cidades praticando crimes. Fiquei estático, pensando que o
sujeito que há poucos dias planejava entrevistar, era agora um criminoso
procurado pela polícia.
Saldo
final deste mergulho infernal de Erberth: acusações múltiplas de estupro e
roubo. Erberth arregimentou um comparsa em sua jornada criminal, o também
lutador André Pessoa. O “Lobo” e seu comparsa saíram em uma jornada pelo mal,
que os conduziu direto para a prisão, respondendo por crimes de natureza
hedionda.
De
longe este é o episódio criminoso mais tenebroso no qual teve envolvimento um
lutador de Jiu-Jitsu, no caso dois, mas com protagonismo de Erberth, uma figura
notória no meio esportivo marcial. Mas não é o primeiro, volta e meia a arte
suave brasileira dá suas caras nas sessões policiais dos veículos de
comunicação.
O
nome Jiu-Jitsu por si só tem já uma tradição em ser utilizado como chamariz de
notícias que envolvem crimes com práticas de violência. Nos anos 1990 e início
dos anos 2000, os Pitboys (alcunha criada por um jornalista em uma fusão dos
termos Playboy e Pitbull) estampavam as manchetes, notícias que descreviam os
horrores de suas ações violentas pelas noitadas cariocas.
A defesa da arte suave sempre foi desqualificar os suspeitos dos crimes violentos da noite, classificando-os como não fazendo parte da comunidade da luta, com a máxima que lutador de verdade luta campeonato. Hoje, passados mais de vinte anos destes casos, podemos confirmar que a maioria fazia parte do meio da luta sim, inclusive alguns com notoriedade esportiva no meio.
Esta promoção nacional do Jiu-Jitsu como elemento utilizado para violência extrema, acabou por forjar uma fama, que em alguns aspectos cresceu a popularidade desta arte marcial. Como uma faca de dois gumes, na medida que essa popularidade cresceu, também marcou para o grande público a fama do Jiu-Jitsu ter uma aura de violência institucional, falta de disciplina e cultura de violência.
Nos anos 2000, nem a família real do Jiu-Jitsu passou ilesa de ter seu nome envolvido com a esfera policial. Ryan Gracie ficou muito conhecido por suas constantes aparições midiáticas neste tempo, em que era visto como um “Bad Boy” arruaceiro. Ryan teve um fim trágico, também tendo cobertura da mídia por conta de ações que culminaram em sua prisão e morte posterior a isto, algo que foi comprovado falha no tratamento da situação por parte dos agentes envolvidos em sua prisão. O caso da morte de Ryan Gracie que repercutiu muito nos meios de comunicação nacional na época, no ano de 2007.
Além de Ryan, outros membros da família Gracie também tiveram seus nomes citados em manchetes das páginas policias, mas com crimes de potencial ofensivo a sociedade muito menor do que o fato que suscitou este texto. Nos anos que separam a Era dos Pitboys e os crimes do “Lobo”, temos um vasto arquivo que envolve Jiu-Jitsu + alguma prática criminosa violenta.
Se
tornou fetiche para os jornalistas relacionar Jiu-Jitsu e crime. A mídia local
de meu estado, que por acaso foi a primeira a noticiar os fatos, usa até hoje a
arte suave brasileira como forma de atrair o leitor para a notícia,
transformando qualquer um que em algum momento tenha trajado a indumentária do
kimono e treinado por qualquer tempo que seja, como sendo um “Lutador de
Jiu-Jitsu”.
O
que seria um lutador de Jiu-Jitsu? Alguém que frequenta, ou frequentou alguma
academia de Jiu-Jitsu pode ser considerado um lutador? Em que momento o fato da
pessoa possuir o conhecimento marcial, torna relevante ter este detalhe citado na
descrição do autor de algum crime? Perguntas que necessitam de reflexão e
compromisso com a verdade para se chegar a um veredicto, mas que são na maioria
dos casos ignoradas por parte do jornalismo desde os anos 1990.
Não
me espanta um jornalista lá naquelas eras dos Pitboys ter utilizado o termo Jiu-Jitsu
como chamariz, mas passados mais de vinte anos, já deu tempo de eles refletirem
sobre o uso indiscriminado da arte marcial como rótulo de autor de crime.
Por
vezes surgem notícias de profissionais do Jiu-Jitsu que são detidos por ações
criminosas. Os crimes de cunho sexual são os que mais frequentemente levam
professores e lutadores para o cárcere. Na maioria dos casos, a notícia circula
apenas no meio da comunidade da luta, pouco caindo na esfera pública de
julgamento, pois é uma atenção que somente quem vive este universo do Jiu-Jitsu
teria com o caso. Mas desta vez, a projeção da figura envolvida chamou a
atenção para muito além da bolha dos viventes desta arte marcial.
O
Jiu-Jitsu possuí uma comunidade formada por pessoas, que estão espalhadas por
diversos setores da sociedade, possuindo gente que carrega dentro de si
elementos bons e ruins. Com índoles e motivações múltiplas, acredito que de
nenhuma ação criminosa é influenciada pelo contato que estas pessoas tem ou
tiveram com a arte marcial.
Desportistas
famosos de outros esportes figuraram nas mesmas páginas policiais, por crimes
tão hediondos quanto os que Erberth está sendo acusado, nem por isso sua
formação esportiva figura na mídia como sendo potencializadora do fato criminal.
Casos como o do Goleiro Bruno e dos jogadores mundialmente famosos Robinho e
Daniel Alves, todos confluindo nos mesmos níveis de violência contra as
mulheres, chamam a atenção da mídia e do público, mas em nenhum ponto o futebol
entra na equação criminosa, sendo apenas o meio que dá projeção social aos autores dos crimes.
Atletas
famosos tem uma relevância muito grande na sociedade, ainda mais a brasileira,
que costuma glorificar um esportista por seus feitos. Quando algum deles
pratica um crime hediondo, a atenção dos fãs se volta para a natureza bestial e
violenta de seus ídolos, que se apresentam como humanos muito piores que
poderíamos imaginar que fossem.
Não desabono a cobertura que a mídia tem tido com o caso, realmente rotular os criminosos como lutadores de Jiu-Jitsu é o correto, mas espero que isto consiga ensinar aos jornalistas as diferenças entre: lutador e praticante, e de quando e como deve-se utilizar o nome do Jiu-Jitsu nestes casos.
Espero que no futuro os jornalistas deem o mesmo tipo de tratamento que seria dado caso o crime fosse praticado por um lutador de outra arte marcial, tal como: Judô, Karatê, Kung-Fu, etc... ou seja, não vincular a arte marcial com o criminoso de maneira gratuita.
A
sociedade não está isenta de que apenas bandidos vivendo a margem da sociedade estampem
os registros e manchetes policiais, esta realidade é muito maior, e envolve até
mesmo desportistas famosos. Sejamos assim justos e conscientes de quais são as
causas, efeitos e consequências de uma ação criminosa, afinal, crimes são
praticados por pessoas, não por artes marciais.

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