Guerreiras e Heroínas da Saga do Jiu-Jitsu Feminino- Parte 2
Eu Também Quero Lutar! A Briga Pelo Direito de Competir
Na
Europa, o Judô feminino conseguiu mais liberdade que no Japão, que por várias
décadas manteve a tradição de vedar às mulheres a oportunidade de competir como
os homens. Os primeiros torneios femininos acontecem justamente na Europa, onde
a sociedade já se constituía como mais avançada em relação às liberdades individuais
das mulheres.
Após a Segunda Guerra Mundial, tanto no Japão
como na Europa e Estados Unidos da América, os esportes começam a se abrir para
as mulheres e as competições femininas são realizadas de maneira mais
frequente, mas ainda levaria muitas décadas para que a luta figurasse com
competições de nível mundial.
As
judocas tiveram que em vários países lutar para que tivessem oportunidades de
competir como os homens faziam. O Judô se tornou esporte Olímpico em 1964 e
neste tempo nem sequer havia na maioria dos países competições com categoria
feminina.
Rusty
Kanokogi é figura central nesta luta pelo direito lutar em competições. Segundo
Mazaguchi (2020), Kanokogi iniciou no Judô em 1955, no Brooklyn YMCA, dojo no
qual era a única mulher. Mesmo com vários episódios ruins, de machismo,
sexismo, em um tempo que o assédio sexual era comum dentro e fora dos tatames,
Kanakogi não desistiu e decidiu lutar com todas suas forças para mudar a
sociedade a sua volta.
Seu
primeiro embate contra o sistema foi em seu primeiro campeonato. Ela se
inscreveu sem mencionar ser mulher e ficou como reserva de seu time. Na final
por equipes, um dos membros do time principal se machucou e ela seria a única
alternativa para seu time não perder. Kanakogi amarrou algo que disfarçasse
seus seios e vestiu uma camisa para que ninguém notasse. A sua luta foi a mais
rápida de todas, conquistando uma vitória em 30 segundos.
Após
a glória da vitória, ela teve o banho de água fria que aquele mundo lhe
reservara. As medalhas e o troféu da equipe foram tomados pela organização,
pois os mesmos alegaram que era contra as regras do evento uma mulher lutar e
seu time havia sido desclassificado por conta disto.
A
polêmica criada por Kanokogi, fez com que os organizadores de eventos
colocassem o termo masculino nos torneios, mas o que visava ser uma
forma de afastar as mulheres da competição, foi na verdade um tiro no pé do
machismo. Com a classificação dos torneios como masculinos, Rusty Kanokogi
encontrou a brecha para criar os torneios femininos.
As
batalhas travadas por Kanokogi foram muitas e sempre que pôde ela bateu contra
o sistema e quebrou todos os tabus de sua época em relação às mulheres. Um
exemplo disto foi sua visita à Kodokan, em uma época que ainda era proibida a
participação de mulheres nos treinos dos homens. Mais uma vez Rusty não aceitou
esta exclusão e lutou pelo direito de treinar com os homens, demonstrando sua
habilidade e, quebrando a tradição machista da instituição, foi aceita no
treino principal.
A grande vitória para as tantas batalhas de
Rusty Kanokogi e outras tantas mulheres nos Estados Unidos, Europa e Japão foi
a realização do primeiro campeonato mundial de Judô Feminino em 1980. Da
primeira batalha naquele campeonato local até o mundial em 1980, foram décadas
de luta diária contra um sistema que usava toda sua força para cercear um
direito básico, o de poder lutar e fazer a arte marcial que ama em toda sua
essência.
O resultado destas batalhas foi positivo, em
1988 as mulheres entraram como evento teste nos Jogos Olímpicos de Seul, e em
1992, nas Olimpíadas de Barcelona, foi efetivada a categoria feminino no Judô.
Esta foi a primeira olimpíada a contar com homens e mulheres competindo.
Estes
feitos só foram alcançados graças às batalhas travadas por mulheres desde o início
da arte marcial. Elas travaram uma guerra difícil, que testou todos os limites
físicos e psicológicos daquelas combatentes, com vitórias dignas das telas de
cinema, seguidas por derrotas que pareciam serem impossíveis de reverter, mas o
espírito combatente destas mulheres não deixou com que os homens vencessem no
final.
Lenta
Progressão da Liberdade Feminina no Esporte Brasileiro
Se
no resto do mundo as coisas começavam a caminhar e a luta por espaço e
reconhecimento se desenvolviam, no Brasil a resistência às liberdades das
mulheres era ainda maior e os avanços aconteciam de forma lenta. O Jiu-Jitsu
chega ao Brasil no início do século XX, mas era prática exclusiva de homens,
somente sendo recomendados, assim como no Japão, os exercícios de autodefesa.
No Gracie Jiu-Jitsu as mulheres são vistas praticando durante as décadas de formação do estilo que viria a se chamar atualmente de Jiu-Jitsu Brasileiro. Mas seu papel era limitado a demonstrações de auto-defesa, dando destaque quando a aluna era uma reconhecida figura da sociedade. Vale destacar que durante as décadas de formação deste estilo brasileiro de luta, não temos nenhum registro de competição ou programa de aula feminina para além da defesa pessoal.
Dois
eventos são de fundamental importância para compreendermos a inserção lenta do
público feminino ao esporte de competição, seja no Judô ou no Jiu-Jitsu. Como
indica a jornalista Patrícia Maeda em seu blog na Carta Capital, Sororidade em
Pauta, no artigo intitulado “A luta pela inclusão de todas as mulheres no
esporte”:
É importante registrar que a história não é linear, mas sim constituída de pequenos avanços e recuos. Getúlio Vargas editou o Decreto-Lei 3199 de 14/04/1941 que previa textualmente no art. 54: Às mulheres não se permitiria a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo para este efeito, o conselho nacional de desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.
Um decreto destes restringiu demais
as mulheres a buscarem oportunidades de praticarem diversos tipos de esportes,
principalmente as lutas, que de nenhuma forma eram vistas culturalmente e
socialmente como algo próprio para uma mulher, pois na visão machista e
patriarcal do período, ia contra a “natureza” da mulher.
O
quadro não melhora nos anos seguintes, e durante a ditadura militar no Brasil
(1964-1985) outro decreto volta com as restrições dos tempos de Getúlio Vargas.
Em 2 de agosto de 1965, o general Eloy Massey Oliveira de Menezes, então
presidente do conselho nacional de desportos, com a deliberação número 7, delibera
que “Não é permitida à mulher a prática de lutas de qualquer natureza, do Futebol,
Futebol de salão, Futebol de praia, Polo aquático, Rugby, Halterofilismo e Baseball.”.
Com
dois decretos destes, ficou impossível termos lutas femininas durante uma boa
parte do século XX aqui no Brasil. Estes decretos e políticas de segregação no
esporte, fizeram com que gerações de potenciais lutadoras fossem legalmente
impedidas da prática da luta. O Judô no Brasil, que desde os anos 1950 vinha em
franco crescimento, inicia somente no final da década de 1970 um processo de
abertura e desenvolvimento da categoria feminina, algo que fora do Brasil já
acontecia há pelo menos duas décadas.
O
Jiu-Jitsu Brasileiro é o último nesta corrida por inclusão
O
Jiu-Jitsu Brasileiro vai ainda mais longe neste tipo de segregação, iniciando
uma abertura total nos anos 1980 somente. Por mais que talvez algumas pessoas
se lembrem de núcleos de mulheres treinando neste tempo, elas ainda eram muito
parcas, digamos que quase ínfimas. Sem igualdade de oportunidades para homens e
mulheres no esporte, somente podemos pontuar que o Jiu-Jitsu Brasileiro começa
este processo em 1985, com a realização do primeiro campeonato feminino,
ocorrido no Estadual do Rio de Janeiro.
Yvone
Magalhães Duarte é uma das pioneiras do Jiu-Jitsu Brasileiro. Yvone vinha
treinando Jiu-Jitsu desde 1978 na academia de Oswaldo Alves, que fez uma
campanha para agregar mais mulheres e aumentar os pagantes, pois em sua visão
as mulheres pagavam melhor.
Yvone
e seu grupo de mulheres praticantes vinham batalhando para que a Federação do
Rio de Janeiro abrisse o campeonato para a categoria feminina, pauta que só
seria atendida em 1985. Yvone se graduou faixa preta em 1990 e participou de
todas as competições femininas entre meados dos anos 1980 e início dos anos
1990.
Quanto
ao fato do primeiro campeonato ser este da Federação do Rio de Janeiro, no
mesmo ano, 1985, ocorreu o Torneio Rio-Minas. Segundo Roberto Pedreira em seu
livro “Choque: The Untold Story of Jiu-Jitsu in Brazil, vol 3” (Sem tradução
para o português), neste torneio houve lutas femininas, o que faz com que este
torneio também seja considerado pioneiro na inserção das mulheres nos circuitos
competitivos do Jiu-Jitsu Brasileiro.
Em
São Paulo, Patrícia Lage foi uma das pioneiras no Jiu-Jitsu. Patrícia começou a
treinar quando criança, no início dos anos 1980, e aos 18 anos foi graduada à faixa
preta. Muitas vezes é creditado a ela o título de primeira faixa preta do
Jiu-Jitsu Brasileiro, mas para termos técnicos ela não foi a primeira, o que
não faz diferença para a história desta grande atleta, que teve um pioneirismo
no Jiu-Jitsu Paulista e em nível nacional.
O
Jiu-Jitsu feminino começa a tomar corpo em meados dos anos 1980, aparecendo em
algumas academias a proposta dos treinos femininos. Roberto Pedreira levantou
em sua obra citada previamente, que Sylvio Behring havia formado uma turma
feminina em princípios da década e que no ano de 1986, Rossene Gracie, filha de
Reylson Gracie, apresentava o curso voltado para mulheres, com objetivo dar
suporte técnico para que mulheres se defendessem da violência masculina.
As
pioneiras do Jiu-Jitsu Brasileiro encontraram barreiras legais, como o das
proibições das competições de lutas até os anos 1980, e resistências
socioculturais à prática da luta, dentro das academias encontravam, além de uma
baixa adesão feminina, um ambiente que por muitas vezes era hostil e até
perigoso, em alguns casos, como discuti no meu livro anterior no tópico sobre a
cultura machista nos tatames.
Nos
anos 1990 o cenário do Jiu-Jitsu Brasileiro começou a abrir mais para as
mulheres, algo ainda tímido em relação à sua luta irmã, o Judô, que nos anos
1990 já contava com um número considerável de lutadoras e praticantes. Mesmo
quase na virada do século XX, o Jiu-Jitsu feminino ainda era uma questão tabu
na sociedade, como podemos ver no conhecido programa da Rede Globo, Globo
Repórter, no ano de 1997.
O
referido programa abordava a temática das Artes Marciais, e o repórter anuncia:
“Já
são mais de 100 academias na terra do Jiu-Jitsu. A maior concentração delas
está no bairro de Copacabana. Aqui também está a única academia com uma aula
aonde menino não entra... (diz o repórter enquanto a câmera o acompanha mudando
de cômodo e a imagem adentrando uma sala cheia de mulheres conversando)”
A
reportagem continua com a descrição do repórter sobre a atividade do Jiu-Jitsu.
A seguir, são mostradas imagens de diferentes mulheres, em alguns momentos de
seus rostos alegres, em seguida no tatame de quimono treinando:
“Típicas
meninas da zona sul do Rio de Janeiro, jovens que acharam um lugar para treinar
livre das paqueras. O Jiu-Jitsu é uma luta de chão, com muito contato corporal,
só entre meninas, não provoca ciúmes nos namorados”
Leka
Vieira em seguida é apresentada como professora desta turma e destaca os
benefícios de uma turma exclusiva:
“A
menina mermo(sic) não quer treinar com um homem, porque está naqueles dias e
tal, ela treina só com as meninas e ela tem a liberdade de falar, olha não vou
treinar hoje porque estou deste jeito... um homem não entende isto, acha que é
frescura.”
A
referida reportagem demonstra o espírito do Jiu-Jitsu Brasileiro feminino neste
final de década, carecendo de mais academias e vivendo basicamente de núcleos
específicos de aulas com turmas só de mulheres. Interessante ver na reportagem
os elementos culturais abordados: a turma exclusiva como ferramenta para que os
namorados não sentissem ciúmes, logo, as “deixando” treinar um esporte de
contato corporal; o desconforto em falar sobre o próprio corpo com um homem (“um
homem não entende isto, acha que é frescura”); o fato de deixar o corpo
esteticamente bem...
Acredito
que a divulgação do Jiu-Jitsu em um programa de rede nacional e com grande
audiência, foi um passo importante para a propagação do Jiu-Jitsu feminino.
Este pequeno trecho de uma reportagem de cerca de 2 minutos é um retrato do
Jiu-Jitsu feminino entre os anos 1990 e anos 2000. Haveria ainda muitas
barreiras para a sua consolidação nas décadas seguintes.
No meio competitivo, o Jiu-Jitsu feminino conseguia se firmar com alguns talentos individuais, como o da protagonista da reportagem do Globo Repórter. Alessandra Vieira, a “Leka”, lutadora que entre meados para o final dos anos 1990, se tornou um ícone do Jiu-Jitsu competitivo, protagonizando disputas acirradíssimas e com alto teor de rivalidade com Daniela Figueiredo Paiva, uma história que dá início a popularização do Jiu-Jitsu Desportivo Feminino no Brasil.
Não perca a terceira e última parte desta jornada, explorando a popularização, crescimento e futuro da arte do Jiu-Jitsu cultivado pelas mulheres.
FONTES:
JAEGER, Angelita Alice. Gênero, mulheres e esporte. Movimento, Porto Alegre, v. 12, n. 01, p. 199-210, 2006.
MAEDA, Patrícia. A Luta pela Inclusão de Todas as Mulheres no Esporte. em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/sororidade-em-pauta/a-luta-pela-inclusao-de-todas-as-mulheres-nos-esportes/, 2019.
MIZOGUCHI, Noriko The Paradox of the White Striped Judo Black Belt. JWCPE Departmental Bulletin Paper. P.27-35. 2020.
SILVA, Gilese Passeri da. Histórico da Mulher no Judô, preconceitos, estereótipos e discriminação. R. Motriviv., Florianópolis, v. 1, n. 5, p. 195–207, 1994.
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