Guerreiras e Heroínas da Saga do Jiu-Jitsu Feminino Parte Final

 

                            Guerreiras e Heroínas da Saga do Jiu-Jitsu Feminino

                                                                 Parte Final

                                                Por: Diego Colino e Luana Gurther



O Jiu-Jitsu Feminino começa a crescer e conquistar seu lugar

O marco para a consolidação do Jiu-Jitsu Feminino no esporte pode ser considerado o Mundial de 1998. Pela primeira vez, em sua terceira edição, o campeonato Mundial contou com a categoria feminina. Este campeonato ainda possuía categorias de peso reduzidas, nesta primeira competição Mundial era agregado na mesma categoria faixas roxa, marrom e preta, prática que se estendeu até os anos 2010. Este era o recurso utilizado, pois agregar faixas compensava o baixo número de atletas participantes, possibilitando a realização de lutas, mesmo que com atletas de graduações diferentes.

Um fato bem interessante ilustra o espírito da competição na época. Depois de uma luta muito acirrada entre Leka Vieira e Daniela Figueiredo, a qual terminou em um atrito entre as duas atletas, um professor reclama da postura de uma das atletas, e um dos organizadores do campeonato, “Zé Beleza”, explica qual o motivo do atrito:

“Elas estão começando a lutar agora e o Jiu-Jitsu é esta luta aguerrida que a gente conhece. Então, esta emoção que a gente vê aqui, era como na nossa época em 70, aqueles campeonatos, elas estão passando por isto agora.”

 https://www.youtube.com/watch?v=fcxjV5orBnU&t=106s

            A comparação feita por Leão Teixeira “Zé Beleza”, um dos fundadores da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu, demonstra que o Jiu-Jitsu Feminino estava em termos de competição, cerca de 20 anos em atraso em relação ao masculino. Algo que atesta como o Jiu-Jitsu Brasileiro avançou devagar em sua inclusão feminina no século XX.

                Nos anos 2000, praticamente todas as competições contavam com a categoria feminina. Tivemos grandes lutadoras se destacando e quebrando barreiras dentro do cenário competitivo, como a já citada “Leka” Vieira que se manteve ativa no cenário competitivo, Rosangela Conceição, Hannete Stack, Letícia Ribeiro e outras lutadoras que driblavam a falta de incentivo e destaque com paixão e disposição nas lutas. Um fato muito importante era que existia um abismo técnico entre as lutadoras profissionais e as que buscavam um lugar ao sol, o que muitas vezes tirava o brilho da categoria.

            Em meados dos anos 2000 surgiu a primeira Gracie que se destacaria nas competições. Kyra Gracie é neta de Carlos Gracie e começa a ter destaque já de faixa azul. Chegando à graduação de roxa se torna apta a disputar com as atletas mais experientes e mostra bons resultados galgando o prestígio dentro do esporte. Fora das linhas do tatame, Kyra acabou chamando a atenção pela beleza e carisma, fato que atraiu atenção de veículos de comunicação fora dos meios esportivos de luta. Tal divulgação fora do meio exclusivo do Jiu-Jitsu esportivo foi excelente para atrair mais mulheres ao esporte.



Kyra Gracie em entrevista ao Programa Jô Soares em 2011, o mais conhecido programa de entrevistas do Brasil  na época 

Os campeonatos chegam nos anos 2010 com um número crescente de mulheres, mas que ainda não contam com um incentivo para se tornarem profissionais, as dificuldades ainda são muito grandes, na verdade, equiparada à maioria dos esportes profissionais em que ainda existe um abismo de retorno financeiro entre homens e mulher. Mesmo com todas estas dificuldades muitos bons nomes surgem no cenário como Michelli Nicolini, Gabi Garcia, Mackenzie Dern, Gezary Matuda, Beatriz Mesquita, Bianca Basílio, Luanna Alzuguir, Luzia Fernandes, Nathiely de Jesus, Ana Carolina Vieira, Jéssica Flowers, Talita Alencar, Ariadne Oliveira, Taiane Porfírio, Luiza Monteiro, Claudia Do Val, além de contar com várias estrangeiras em destaque como Rikako Yuasa, Ffifon Davies, Jena Bishop, Amal Amjahid e Tammi Musumeci.

            Um fato interessante sobre o Jiu-Jitsu Brasileiro feminino é que ele conta com um maior número de estrangeiras campeãs mundiais. Na categoria masculina, por exemplo, ainda temos um número bem reduzido de estrangeiros campeões da principal categoria do Jiu-Jitsu, e no Jiu-Jitsu feminino, já há alguns anos o cenário não é majoritariamente brasileiro, apesar de termos muitas brasileiras em destaque, em quase todos os mundiais temos os podiums com representações de países diferentes.

Presente e futuro das mulheres nas artes marciais

            No final de 2012, o Ultimate Fight Championship (UFC) anunciou a contratação de Ronda Rousey e a criação da categoria feminina, isto foi uma quebra de paradigma do maior evento de lutas marciais mistas do mundo, que relutava em abrir espaço para as mulheres, exemplificado na resposta de seu mandatário alguns anos antes, Dana White, que ao ser questionado sobre quando iriam ver mulheres no UFC, ele respondeu em uma única palavra: “nunca”.

Por sorte do esporte, seu mandatário errou em sua previsão e teve que dar o braço a torcer, ou foi torcido pelo talento de várias lutadoras. O MMA feminino tem crescido desde o início da década de 2010 e atualmente o Brasil conta com a maior expressividade de campeãs nos maiores eventos de MMA do mundo na categoria feminina, Amanda Nunes e Cristiane “Cyborg”, além de várias lutadoras que estão no top 10 de suas categorias.

            O Judô Brasileiro tem já uma tradição de judocas de talento e reconhecimento internacional, o que os campeões olímpicos fizeram pelo Judô nos anos 80 e 90, foi feito pelo Judô feminino nas edições recentes das Olímpiadas, destaque para as mulheres, que em algumas edições conseguiram alcançar os melhores resultados, com Sarah Menezes, medalhista de ouro nas olimpíadas de Londres, e Rafaela Silva, que nas Olimpíadas do Rio de Janeiro conseguiu o feito de ganhar a medalha de ouro dentro de seu país, engrandecendo ainda mais o esporte feminino.( Este texto foi escrito antes da última medalha de ouro conquistada no Judô feminino, em 2024, nas olimpíadas de Paris, por Beatriz Silva)

            O crescimento do MMA e do Judô são um incentivo a várias meninas a iniciarem nos esportes de luta, além de atrair várias lutadoras de Jiu-Jitsu Brasileiro para migrar e buscarem uma carreira no MMA ou de mulheres a competirem em ambas as modalidades Judô e Jiu-Jitsu Brasileiro. Outro resultado positivo do destaque destas modalidades é que a participação das mulheres nas artes marciais, em geral, fica em evidência, propagando uma ideia de que as lutas são para as mulheres também e que grandes lutadoras incentivam jovens lutadoras a iniciarem uma nova geração.

            O Jiu-Jitsu Brasileiro feminino vem na esteira do crescimento dos esportes femininos, mesmo ainda sofrendo de muito preconceito e discriminação, mas que graças a mulheres como Eddith Garrud, Rusty Kanagochi, Yvone Duarte, Leka Vieira, Kyra Gracie e tantas outras, puderam entregar a uma geração de mulheres a possibilidade de se verem representadas, praticarem livremente e, se quiserem, também ser uma profissional da arte marcial. O futuro do Jiu-Jitsu Brasileiro feminino e da luta em geral tem de ser cada vez mais marcado por igualdade e liberdade, a luta continua, e a contar com estas guerreiras do passado, mais vitórias virão no futuro.


Apêndice:

Nas palavras da Pioneira, Yvone Duarte descreve o início do Jiu-Jitsu feminino no Brasil

Pesquisando sobre o Jiu-Jitsu feminino, me deparei com a incrível história de Yvone Duarte, que acumula vários marcos de pioneirismo no Jiu-Jitsu. O último foi no ano de 2021 ao ser a primeira mulher a chegar à graduação de faixa coral. Um dos autores da entrevista tinha elaborado uma série de perguntas, e entrou em contato com ela para serem possivelmente respondidas, mas, por um acaso do destino, Yvone tinha em sua agenda uma live na mesma semana em que as perguntas foram encaminhadas. Durante sua explanação, ela respondeu às perguntas previstas e deu informações que não estavam nas perguntas originais.

Como não foram perguntas diretas, e sim respondidas a uma terceira pessoa, vamos destacar os principais pontos.

Yvone disse que o primeiro grupo na academia de Oswaldo Alves era composto por 8 mulheres, no geral era muito raro mulheres nas academias do Rio de Janeiro. O projeto de inclusão da categoria feminina nos campeonatos começou a se organizar no início dos anos 80 e se concretizou em 1985.

Um fato interessante sobre Yvone, foi a de ter lutado grávida o primeiro campeonato. Além do pioneirismo nas competições, como profissional ela também foi a primeira mulher a dar aula em uma academia da polícia militar.

Em seu início, ela descreveu que havia muita desconfiança dos lutadores da academia, para ganhar respeito teve que demonstrar na prática que funcionava mesmo a técnica que sua graduação fazia presumir que possuía.

Ajudou na criação da Confederação em Brasília, deu aula para muitas pessoas do Judô nesta mesma cidade [que já vive há um bom tempo].

Atualmente, Yvone se dedica ao ensino da defesa pessoal na Universidade de Brasília para grupos de risco de violência, principalmente para grupo LGBTQIA+.  Ela utiliza estatística de violência para compreender como estes grupos de risco são agredidos, adaptando a defesa pessoal às situações pelas quais essa população sofre agressão.

Apesar da melhora no cenário, a pioneira destaca que muitos locais de poder são de domínio masculino, principalmente nos cargos de direção do esporte.

Um destaque que Yvone fez, foi no incentivo dado por seu irmão, pois por várias vezes passou por situações de ficar como último treino da academia, pois eram faixas azuis e o treinamento era para faixa preta. O irmão incentivou muito a participação das mulheres dentro da academia.

Uma frase de incentivo dita por Yvone é: não aceitar o não.

A seguir, algumas respostas às perguntas enviadas pelo jornalista:

Quando a Sra (ou você) começou a treinar se lembra de saber da lei proibitiva da prática da luta por mulheres?

 Era um ambiente de retomada após um período ditatorial e era um contexto social de luta por ocupar espaço, a partir de várias mulheres que vinham com vozes presentes. Yvone exigiu a participação por direito de abertura, e era um movimento coletivizado.

Qual era o ambiente das academias de quando você começou e das academias em geral nos anos 1980?

         Ambiente muito masculinizado, que cerceava as liberdades das mulheres no Jiu-Jitsu, apesar de que era mais ameno para Yvone por ter um irmão lutador, Pascoal Duarte.

Como foi a adesão ao primeiro campeonato feminino? Gerou uma certa resistência aos homens na época ou foi bem recebido?

Rickson Gracie era o presidente, pediu primeiro para consultar o professor Hélio Gracie e só assim liberou. Abriram um campeonato específico para as mulheres, separado, primeiro torneio da federação. As mulheres que organizaram tudo, patrocínio, tinham desconfiança, com as lutas a visão muda, pois as lutas empolgaram a torcida, agregando as rivalidades para as lutas femininas. Teve matéria no jornal do Rio, teve cobertura de outros veículos e foram reconhecidas depois pela comunidade do jiu-jitsu local.

Você acompanha a evolução das competições do Jiu-Jitsu feminino na atualidade? E como você enxerga as diferenças em relação às competições pioneiras?

Acho fantástica a expansão do Jiu-Jitsu e a exportação do Jiu-Jitsu. O Jiu-Jitsu evoluiu muito nos anos 1990. A geração dos anos dourados teve o privilégio de ter vivido uma boa fase. Existe muita preocupação com resultado de campeonato e não tanto em demonstrar habilidades técnicas. O Jiu-Jitsu teve uma evolução técnica, mas existe uma raiz uma essência dos anos pioneiros.

Apesar de termos óbvios avanços em relação às mulheres no Jiu-Jitsu Brasileiro, você ainda enxerga algumas barreiras e preconceitos?

Cada lugar que o Jiu-Jitsu esteja não seja vetado a participação das mulheres, as mulheres tem uma visão de mundo muito boa e agregaria muito a organização do Jiu-Jitsu. Não é estar acima é estar junto.

A própria expansão do Jiu-Jitsu foi uma grande mudança, que era centralizado no Brasil, para você ter um exemplo do excesso de controle, não tem filmagem das primeiras lutas, elas eram invisíveis no começo. Houve uma expansão do Jiu-Jitsu natural, a partir do Brasil e para o mundo. A expansão fez com que tivesse um reconhecimento, mas o Jiu-Jitsu ainda é muito masculino, começar Jiu-Jitsu e desenvolver o Jiu-Jitsu é outra tarefa, faltam mulheres nos cargos de poder nas federações, ocupando locais de poder que são exclusivamente masculinos.

Como você se sente sendo a primeira faixa preta do Jiu-Jitsu Brasileiro?

Eu não fiz nada de especial, eu fiz algo que qualquer pessoa que de qualquer geração faria para ganhar espaços.

Qual seria a ação para minimizar o machismo no ambiente do Jiu-Jitsu?

Minha vontade é de criar um programa que tenha selo de qualidade “Machismo Não” nas academias, federações e confederações.

Em relação a objetificação das mulheres.

No Jiu-Jitsu é um reflexo da relação da sociedade em objetificar os corpos das mulheres, pois a sociedade cerceia a liberdade do corpo da mulher. Depende da mulher se posicionar e demonstrar a postura de o porquê estar no tatame e tirar a objetificação que os homens fazem sobre o corpo da mulher.


FONTES:

https://bjjfanatics.com.br/blogs/news/aniversario-kyra-gracie

https://www.graciemag.com/as-quase-desconhecidas-pioneiras-do-mundial-de-jiu-jitsu-feminino-da-ibjjf/

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Faixa Preta: Licença Para Falar Besteira

Waldemar Santana, a Resistencia do Jiu-Jitsu Afro Brasileiro