Jiu-Jitsu Olímpico: Uma Utopia do Improvável
De
quatro em quatro anos, vários(as) praticantes de Jiu-Jitsu Brasileiro
prostram-se diante das telas da televisão e dos celulares, e são compelidos a
um complexo de inferioridade, abaixando, assim, a autoestima de uma orgulhosa
arte marcial. Por que será que as Olimpíadas provocam isto na comunidade da
arte suave? Fazendo com que nesta época de festividade esportiva sempre nos
perguntemos: “Por que o Jiu-Jitsu não é Olímpico?”
Olhamos distantes a glória de nosso
parente rico, o Judô, que há décadas colhe os louros de ser um esporte
Olímpico. Mas por que eles e não nós? Ah, acho que eu sei, é porque somos
desorganizados, não, pera aí, pode ser por que somos indisciplinados? Também...
olha o tanto de federações que nossa arte marcial tem! Sem deixar contar nossa
regra, confusa, que não ia ficar nada boa na tv! Seja qual for a desculpa que
você queira dar, ela já foi dita e repetida à exaustão.
Como alguém que não foi convidado
para a festa principal, alguns preferem desdenhar da própria festa em si, se
orgulhando em dizer “O Jiu-Jitsu não precisa das Olimpíadas”. Nisso até
concordo, mas também concordo que, tão pouco as Olimpíadas precisam do
Jiu-Jitsu. Ou, podemos desdenhar de quem já é participante assíduo, que faz
parte desta festa desde 1964, diminuindo a arte marcial em si, acusando o Judô
de não ser mais um “combate real”.
No fim, alguns caem na melancolia de não fazer parte disto, imaginando um cenário apocalíptico, em que resumimos da seguinte forma: “As Olímpiadas iriam destruir o Jiu-Jitsu”. Como pensamos nestes cenários imaginários! A cada quatro anos imaginamos esta dimensão em que teríamos nosso querido Jiu-Jitsu como esporte Olímpico.
Esta obsessão pelas Olimpíadas, fez com que nos anos 2000 fosse fundada uma confederação que anunciava, mesmo sem qualquer possibilidade, que havia um “Jiu-Jitsu Olímpico”. Nunca houve este Jiu-Jitsu, e se quer em algum momento foi aventada ou cogitada a possibilidade de nossa arte marcial entrar neste processo. Vocês sabem o que é preciso fazer para chegar lá? Muita coisa...
Como primeiro critério, o esporte
tem de ser praticado por homens em no mínimo setenta e cinco países em quatro
continentes, e por mulheres em no mínimo quarenta países em três continentes, e
aí, acham que já temos tudo isso? E tem mais, os esportes podem entrar e sair
do programa, desde que com sete anos de antecedência da próxima olimpíada, bom,
não pleiteamos nada, então, coloca mais sete anos aí de espera mínima, ah, isso
se: o esporte já for reconhecido pelo COI (Conselho Olímpico Internacional), mas,
até o momento que esta linha é escrita, o Jiu-Jitsu não figura neste hall. Hum,
tem mais um detalhe que eu esqueci, para um esporte entrar, outro tem de sair.
Quem sairia? Talvez o Boxe, não... muito popular para tirarmos. Quem sabe a Luta Olímpica? Ela já andou mal das pernas no passado, chegou até a ficar na corda bamba, mas parece que nem este mal momento a tirou de lá, então, acho que não seria o Jiu-Jitsu que poderia fazer isto. Quem sabe, só uma sugestão, o Judô sairia para a gente entrar? Claro que não! Hipótese boba até de pensar, não é? E afinal, qual justificativa teríamos para substituí-lo? E qual diferencial teríamos para fazer parte ao lado dele?
Judô e Jiu-Jitsu Brasileiro são artes marciais oriundas de uma mesma fonte, sendo assim, a olho nu, para um leigo, praticamente idênticas. Não, que isso? Nós igual a eles? Sim, somos, pense comigo: nós usamos as mesmas vestimentas que eles, combatemos em um mesmo cenário que eles, só nos diferimos em uma coisa, na regra. Por que, então, o Programa Olímpico, que visa a diversidade dos esportes, incluiria um esporte praticamente igual? Sinto esvair as esperanças...
Para onde olho, só vejo barreiras,
bloqueando até mesmo a possibilidade mínima de sonhar. O que nos resta?
Praguejar, distribuir a culpabilidade de não sermos olímpicos. É tudo culpa dos
dirigentes, dos atletas, do estado, e quem sabe até do mundo, que se mostra tão
injusto neste momento conosco. Mas calma, podemos pensar em uma forma de lidar
com este mal que nos aflige, o qual Nelson Rodrigues definiu como sendo bem
brasileiro, assim como nosso Jiu-Jitsu, o chamado “Complexo de Vira Lata”.
Deixemos de lado este “Complexo de Vira Lata” do Jiu-Jitsu Brasileiro. Em vez de nos perguntarmos “Por que o Jiu-Jitsu não é Olímpico?”, podemos apenas seguir nossas vidas da forma que sempre seguimos, sem sermos olímpicos, e nos contentarmos de em quatro em quatro anos assistirmos pelas telas a consagração de uma arte marcial aparentada.
O Jiu-Jitsu Brasileiro nasceu, floresceu, e cresceu sem uma olimpíada para chamar de sua, e está aí, mais vivo do que nunca. Então, deixemos de cultuar esta utopia do improvável, que como espero ter demonstrado, foi, é, e não vejo horizonte de deixar de ser, apenas um sonho além da imaginação.

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