A Última Dança de um Lutador
Ato
1
O Nascimento e Florescimento de uma Alma Guerreira
Escrevo, quero dizer,
descrevo, com palavras e emoção, o evento que foi meu último campeonato como
lutador de Jiu-Jitsu Brasileiro. Venho lhes contar o que carrega a alma de um
lutador no seu crepúsculo, e o que foram estes últimos momentos de iluminação
em um tatame competitivo. Escolho o termo “última dança”, pois era como
gostaria de levar o meu jiu-jitsu para o palco-tatame na minha última
apresentação ao público: o jiu-jitsu arte.
Saber a hora de parar...,
é..., esse talvez seja o conflito humano que nos acompanha desde o alvorecer de
nossa espécie. Quando é a hora de parar? Até quando podemos forçar os limites
físicos e mentais do nosso corpo? Em tudo o que fazemos na vida, nosso tempo é
limitado pelo tempo biológico, que caminha muito mais rápido do que
gostaríamos. Não seremos capazes de fazer com saúde tudo aquilo que gostamos e
acreditamos sermos capazes até o fim de nossas vidas. Para um lutador, este é
um conflito constante ao longo do trajeto. É uma decisão que começa a martelar
a mente depois de um tempo fazendo isso. Cada um tem o seu tempo, e hoje eu
estou aqui para falar do meu.
Minha trajetória começa
cerca de vinte e quatro anos antes dos eventos desta última dança, mas vamos
começar do fim para o início, logo ele virá à tona. Lá estava eu na vida,
adentrando o sexto ano da terceira década de minha existência, carregando nas costas
o peso de muitas batalhas, e preparando o meu espírito para me despedir
definitivamente dos tatames competitivos.
Há alguns anos comecei a
refletir sobre a hora de parar. Acredito que uma lesão é o momento de maior
reflexão para um atleta em geral, e para um lutador, então, é um momento
delicado. Pois por volta de quatro anos atrás, uma lesão me deu a noção da
mortalidade de um guerreiro, não no sentido literal, mas demonstrou para mim
que meu corpo era perecível, estando sujeito às intempéries dos danos das
batalhas incessantes.
Pouco antes desta lesão,
havia passado por um momento confuso depois de retornar de uma jornada de dois
anos e meio pela Ásia, situação na qual voltei de onde vim, e não sabia para
onde ir. Vivendo esse dilema com a minha carreira de lutador, cheguei a pensar
em uma última ação desesperada, para quem sabe, alcançar a glória que ainda
estava reservada para mim. Eis, então, que meu aluno Welton “Branco” me deu uma
luz questionando: “O que mais você quer ganhar? O que você ganhou já é
importante, você acha que pode ganhar algo além?”
Um questionamento
simples, mas que me trouxe reflexão sobre os rumos que minha jornada de lutador
deveria tomar, me fazendo compreender que havia chegado ao limite do que
busquei nas últimas duas décadas de minha vida. A partir dali, me dei por
satisfeito com o que havia conquistado, decretando para mim mesmo que o ponto
final havia chegado, não mais vislumbrando uma glória futura, mas abraçando de
vez as glórias do passado.
Foi fácil? De maneira
nenhuma. Questionei-me em vários momentos sobre a minha decisão. A cada treino
bom, pensava: “Será que ainda dá?”. Quando na posição de árbitro mediava um
combate da minha categoria, me questionava: “Será que eu conseguiria ainda?”. E
nisso foram surgindo perguntas frequentes das pessoas que me rodeavam, e das
que me conheciam das lutas do passado: “E aí, quando você volta?”, “Vai lutar
hoje?”, “Pô, não vai mais lutar?”. Quando anunciava que estava aposentado,
sentia um espanto: “Como assim você parou?!”.
Eu sempre levei com
tranquilidade estas situações, respondendo de diferentes formas. Às vezes
respondia mais sério, em outros momentos levava mais na brincadeira, por vezes,
escolhia dar respostas breves e suscintas. Era um sentimento muito complexo
para conseguir expressar em poucas palavras ou em uma conversa de curta
duração, então, nem tentava... Quem tinha que compreender os meus motivos era
eu mesmo, e por muito tempo questionei a mim mesmo pela decisão.
As perguntas foram se
dissipando, dando lugar aos poucos aos pedidos: “Queria ver você lutando”,
“Saudade de ver uma luta sua”, “Mestre, queria assistir você lutando pelo menos
uma vez”. O conflito me perseguia, fazendo com que o meu eu racional tivesse que
constantemente discutir com meu eu lutador, meu eu guerreiro, e principalmente,
meu eu artista marcial.
Hoje vejo a luta não mais
como um apenas um esporte, mas sobretudo como uma arte, e quem a prática,
dentro das suas várias dimensões, como um artista marcial. Nos últimos
anos essa foi a mudança na minha visão, fazendo-me enxergar mais a arte
e não mais tanto o marcial. E era justamente esta nova visão que corroía a
minha decisão de parar. Comecei, então, a desenhar em minha mente um possível
“último ato”.
Tenho o hábito de correr
na areia, não na praia, pois Campo Grande não tem nada que seja semelhante a
isto, mas em um parque próximo de minha casa. Corria solitário sob o sol
escaldante da manhã, sentindo o calor da areia nos meus pés, com música nos
ouvidos, e muitos pensamentos na mente. Nestes momentos, me sinto em estado
meditativo, por vezes profunda. E nesta concentração costumaz, imaginava como
gostaria que fosse minha última apresentação no tatame, imaginando possíveis cenas
desta despedida. Não sabia quando, nem onde, mas sabia que iria acontecer.
Eu tinha em mente dar um
fechamento digno para a minha jornada, algo que marcasse aquele momento para
mim e para o púbico que desejava me assistir. Minha vida caminhava em vários
rumos diferentes, até que em um dia, algo me fez decidir realizar este ato tão
planejado no campo das ideias.
Ganhei um presente
interessante na época que apresentava um programa de Podcast. Era uma espécie
de mostruário de madeira, adornado para ser um suporte de amostra de faixas.
Não tenho nenhuma das minhas faixas pregressas, então, tive ideia de adaptar o
suporte de faixa para ser um mostruário de medalhas, para dar a elas um
tratamento melhor do que a caixa em que estavam guardadas e quase esquecida por
mim. Ornamentei o suporte de madeira com as medalhas mais importantes que conquistei
na minha trajetória, e com a ajuda de amigos, colocamos o mostruário no hall de
entrada da minha academia. Tirei uma foto com o mostruário adornado pelas
medalhas ao fundo, e anunciei nas redes sociais a minha aposentadoria. Porém, não
imaginava o efeito que aquele simples gesto teria.
Recebi uma enxurrada de
parabenizações, lamentações, e pedidos para não tomar aquele rumo, mesmo assim,
me sentia confortável com a decisão. Eis que em um almoço de domingo na casa
dos meus pais, minha filha Sophia me perguntou sobre a decisão de parar. Expliquei
a ela resumidamente o motivo, e escutei da minha mãe: “Ah! Você tem que fazer
uma última luta”. É... aí ficou a parada ficou séria! Neste ponto da história
vou voltar no tempo, cerca de vinte e três anos antes deste pedido de minha
mãe.
Minha primeira luta
ocorreu no mês de abril do ano dois mil, na cidade de Porto Velho, Rondônia.
Cerca de dois meses antes deste campeonato, meu pai decidira que eu e meu irmão
Marcello iríamos arrumar uma luta para praticar, para, assim, cessar as
constantes brigas que tínhamos cotidianamente. Meu irmão é um ano e meio mais
novo que eu, e era naturalmente um atleta, sendo um rival assíduo em minha
infância.
Quem cresceu nos anos
noventa sabe que o clima de masculinidade era extremamente competitivo, ainda
mais entre irmãos. Meu irmão criava todos os tipos de desafios, inventava
brincadeiras e esportes, e em todos ele me arrasava sem dó. Nos confrontos
físicos, eu era engolido pela força, agressividade, agilidade e disposição
dele.
Meu pai nos perguntou:
“Que luta vocês querem fazer?”. Pensávamos e refletíamos sobre qual escolher.
Queríamos achar aquela que nos daria mais poder, as artes marciais eram um
mundo de fantasia para nós crianças. Eis que uma reportagem na TV nos deu a resposta.
Os Pitboys
assustavam a noite carioca, com uma fúria e violência que era destaque na
matéria da TV. Eu não escutava quase nada do que a repórter dizia, só a palavra
Jiu-Jitsu era assimilada pelos meus ouvidos, pois uma imagem marcou aquele
momento. Guardo na mente de maneira quase nítida a cena que me despertou para a
arte marcial.
Diante da tela da
televisão, dois pré-adolescentes ficaram mudos e boquiabertos com o que viam na
cena televisionada. A reportagem mostrava uma rua escura, iluminada apenas pela
luz fraca advinda dos postes, nela era possível ver as sombras de homens vagueando
pelo breu da rua e uma confusão entre esses homens se intensificava, uma destas
sombras saltou nas costas de um rival daquele confronto urbano, e, em seguida,
o oponente caiu desfalecendo no asfalto, tal como se por mágica tivesse
morrido. Eu e meu irmão tivemos um insight conjunto, naquele momento tínhamos a
resposta para meu pai: Jiu-Jitsu!
Meu pai não questionou
muito, mesmo com a má fama que aquela luta tinha na época. Ele procurou uma
academia, encontrando até que rápido aquela exótica arte marcial de nome
japonês, e anunciou que iríamos começar “esse tal de Jiu-Jitsu”.
E, em um dia ensolarado,
como são a maioria dos dias em Porto Velho, eu e meu irmão adentramos um
extenso galpão, que tinha um enorme (pelo menos para mim parecia) tatame de
lona amarelo, no qual funcionava a Academia de Jiu-Jitsu do Professor Marcelo
Cruz.
Nosso primeiro professor
era um manauara, faixa marrom na época, e eu e meu irmão éramos as únicas
crianças na academia. Eu tinha doze anos e meu irmão onze, e no início do novo
século, um tempo de sonhos futuristas, eu começava minha jornada no Jiu-Jitsu.
De início veio uma certa
decepção: “Como assim? Não tem soco nem chute?”. Mesmo assim, conforme as
técnicas foram sendo ensinadas, aquilo parecia fazer sentido. Se a técnica eu
entendia, na luta eu ficava perdido. Meu adversário no treino era o mesmo que
eu tinha em casa, só que agora ele tinha mais espaço, tempo e liberdade para me
esmagar.
Meus primeiros meses
foram como saco de pancadas do meu irmão, que me vencia com facilidade, o
prazer que ele tinha em me bater era a recompensa do treino para ele. Jiu-Jitsu
naquele tempo, no ano 2000, era basicamente campeonato, treinava-se visando isto,
e para dois jovens ávidos pelo confronto, bastaram dois meses de prática para
irmos nos testar.
Eu assistia muito o anime
Dragon Ball, e lá havia um torneio de artes marciais, no qual o protagonista
Goku se preparava, treinava duro, e na luta parecia se divertir com as
dificuldades do combate. Com essa inspiração, achava que meu “torneio” seria
tão divertido quanto no desenho. Mas no dia do “torneio” eu aprendi que
fantasia e realidade são duas dimensões diferentes.
Na manhã da luta, não me
sentia tão confiante quanto Goku, muito pelo contrário, jamais havia me sentido
tão mal em uma manhã. Tentei sem sucesso comer algo antes de ir para o
campeonato, mas não conseguia sequer deglutir o alimento que colocava em minha
boca, tamanho meu nervosismo. Sem que eu conseguisse comer nada, fomos eu, meu
irmão e minha mãe para o campeonato.
O campeonato era
realizado dentro de uma academia de Jiu-Jitsu, que me lembro que ficava no
segundo andar de uma galeria. Quanto aos detalhes do espaço, me lembro muito
pouco, apenas alguns flashs. Ao entrar no ambiente, eu senti o sufocamento do
nervosismo. Tudo parecia intenso, ameaçador e amedrontador. Meu irmão parecia
tranquilo, como pareceu a vida toda diante de um desafio, mas eu estava
tremendo de medo bem antes de sequer começar.
Vimos o nosso oponente,
um garoto que era maior que nós dois, mas que para mim, naquele estado de
nervos, parecia muito, mais muito, maior. Meu irmão foi o primeiro a lutar, o
que foi uma sorte para mim, pois acreditava que ele venceria e me daria mais confiança.
Não lembro do combate
dele, só me recordo que meu irmão foi derrotado, de maneira honrada, lutando o
máximo que podia. Quando vi que o meu parceiro de treinos, e da vida, o qual me
arrebentava todo dia, seja em casa ou na academia, havia perdido, tive certeza
de que não teria chances...
Pouco tempo se passou
entre a luta dele e a minha, mas que pareceram uma eternidade para aquele
pequeno “lutador” infanto juvenil, um garoto de doze anos, magrelo demais, que
não pesava sequer quarenta quilos, e carecia de qualquer força muscular. Chegara
a minha hora... e lá ia eu, como um boi adentrando um abatedouro, só que ciente
de que seria sacrificado.
Meus pés pareciam estar
pesados como chumbo, avançando no tatame como que se estivesse em um lamaçal de
mangue. A respiração antes mesmo do confronto começar havia acelerado, sessando
abruptamente conforme tentava controlá-la. Eu não tinha uma gota de saliva que
pudesse umedecer a minha boca, era como estar em um deserto e sentir a língua
seca arranhando o céu da boca. A minha hora havia chegado, eu não sabia o que
faria para tentar escapar.
Os detalhes da luta se
confundem em minha mente, não me recordo se quer da cor do kimono do meu
oponente, sua feição ou compleição física, esses detalhes simplesmente foram
apagados de minha memória, por mais que force para buscar imagens, quase nada
encontro. Quando tento me recordar, é como se meu primeiro oponente fosse
apenas uma sombra me engolindo. A luta em minha memória é apenas um apanhado
confuso de flashs. Como sensação recordável, diria que foi como estar dentro de
um liquidificador ligado na velocidade máxima.
Recordo-me de pular
desesperado para fechar a guarda, tranquei o cadeado com os meus pés, e fiquei
de olhos fechados o tempo todo, segurando a respiração como se tivesse
mergulhado no fundo do Rio Madeira. Meu mundo girou, e em pouco tempo eu já não
sabia se quer o que acontecia e o que estava fazendo.
Dos flashs que me vem à
mente, eu me lembro apenas de me movimentar desesperadamente para que aquilo
acabasse. Durante a luta a vista escureceu, nem me lembro em que situação
estava direito, acredito que meu adversário, já de guarda passada, me colocou
em uma situação na qual eu não conseguia respirar ou me mexer. Tudo escureceu
de vez e havia perdido a consciência do que estava fazendo ali.
A luta havia acabado sem
realmente ter acontecido. Havia sucumbido, desmaiado e reanimado, para assim
viver um momento de puro sofrimento, de agonia física e emocional.
Depois da luta, fui
carregado no colo por algum adulto escada abaixo, colocado no carro de minha
mãe, e em seguida levado direto para o hospital. Chorava copiosamente, o que
dificultava ainda mais a respiração. Demorou um tempo para conseguir pelo menos
me acalmar para demonstrar que não estava tão mal. Na maca do hospital, eu consegui
pelo menos reestabelecer a respiração e pensar, o que era um alívio e suplício
ao mesmo tempo, pois o que ocorrera nem uma hora atrás, parecia ter tomado conta
de toda a minha mente.
Algo que ficou cravado na
memória foi a vergonha que eu sentia. Não conseguia encarar ninguém nos olhos,
me sentia o mais fraco dos meninos, o mais covarde, como a cara mais vil da
derrota. Na tentativa de limpar um pouco a vergonha, disse à minha mãe: “Nunca
mais quero entrar no tatame novamente”. Como poderia? Na minha mente eu era a
maior decepção do esporte. Porém a reação de minha mãe contrariou o meu
sentimento, algo que moldou minha vida a partir de então.
“Você vai sair desse
jeito? Você tem que lutar novamente, não pode terminar assim”. Na hora isso não
me consolou muito, mas pelo menos havia uma fagulha de esperança advinda dela.
Ali mesmo no hospital, foi essa a luz que me tirou das trevas em que me
encontrava, e que transformou a derrota em uma missão pessoal. Eu tinha que
lutar para chegar ao final de um combate, e dar, assim, algum orgulho para a minha
mãe.
Minha mãe foi a minha
primeira treinadora. Ela determinou que eu deveria subir de peso, ganhar pelo
menos algum físico, visto que eu parecia desnutrido para minha idade. Comecei a
comer um pouco mais, e em alguns meses havia ganhado algum peso, não muito, mas
na situação em que estava, ajudou bastante. Treinei e me dediquei ao máximo para
um garoto de doze anos. E, alguns meses, depois do meu primeiro campeonato
vexatório, voltei para o tatame, onde enfrentaria novamente os meus medos face
a face.
Mais forte e com um tempo
a mais de experiência, me sentia confiante nesta segunda incursão. Não me
lembro muito bem do momento anterior à luta. Se fiquei nervoso? Com certeza que
sim, mas, desta vez, não travei.
Recordo-me um pouco da minha
segunda luta, que pode ser considerada a primeira, já que na verdadeira primeira
luta se quer luta teve. O que mais me marcou neste evento foi o momento em que
apliquei um armlock e senti o braço do outro garoto esticado na alavanca
de minhas pernas, com o árbitro parando o combate.
Pela primeira vez tive
meu braço erguido ao final de um combate, naquele instante senti o maior êxtase
de minha curta jornada de vida. Eu tinha recuperado a minha “honra”. Meu braço
erguido demonstrava que eu não era uma vergonha. Minha mãe estava orgulhosa,
seu lutador havia vencido, nós havíamos vencido! Já poderia terminar ali minha
jornada, mas algo naquela experiência havia me transformado: o gosto da
vitória.
O êxtase da vitória é algo
indescritível. Eu vejo como uma espécie poderosa de droga, que faz com quem a
experimenta a querer mais e mais. Na juventude busquei esta dose de vitória de
várias maneiras, não só no Jiu-Jitsu. Naquele tempo, o Jiu-Jitsu era apenas uma
atividade para mim, dentre tantas que um adolescente de classe média alta tinha
chances de experimentar, não sendo levado realmente a sério nestes primeiros
anos.
Havia me afastado um
pouco com o Jiu-Jitsu, o futebol, naquele ano que foi o último em que o Brasil
ganhou uma Copa do Mundo, era a febre do momento. Lutei mais alguns
campeonatos, indo bem na maioria deles, mas com o tempo, aquela busca não era
mais tão atrativa. Mudamos de cidade ao final de 2002, chegando no início do
ano sequente a Campo Grande, capital do estado em que nasci, Mato Grosso do
Sul.
Entre os quinze e
dezesseis anos eu ganhei altura de um adulto, mas distribuída em um peso de
criança, algo que mudou minha experiência desportiva por completo. Alto e
desengonçado, os esportes coletivos começaram a ficar difíceis para mim. Também
havia ingressado no Colégio Militar, onde precisaria me dedicar integralmente
aos estudos para sobreviver. Nesta mudança toda, o Jiu-Jitsu acabou ficando em
Porto Velho.
Cerca de um ano depois de
chegar à capital do Mato Grosso do Sul, desisti de vez do futebol, não me
sentia mais capaz de apresentar boas performances nesse esporte. Neste vazio
esportivo, acabei me recordando do Jiu-Jitsu, que em minhas memórias não
parecia tão difícil quanto o futebol, ainda mais naquele momento, em que tinha
uma altura de adulto. Assim, acreditei que teria mais êxito ao retornar ao
Jiu-Jitsu.
Nasci
para o Jiu-Jitsu em Porto Velho, Rondônia, mas foi no Mato Grosso do Sul que
realmente nasci como lutador, e onde fiz a maior parte da minha caminhada. Foi
no Jiu-Jitsu do meu estado natal que me criei, apareci, e que floresci para
minha arte de lutar.
Retornei
para viver mais uma vez aquela arte marcial, agora, mais velho e maduro. Minha
experiência pretérita me deu vantagem nos treinos. Com um corpo maior, sentia
mais confiança em arriscar. Eu tinha dezesseis anos, muita motivação e vontade,
e em pouco tempo treinando, senti que era capaz de entrar no tatame para competir.
E quatro anos depois daquela primeira luta, lá estava eu de volta ao ginásio,
sentindo o medo e a agonia novamente.
Eu
me lembro bem: o meu eu jovem adentrando o ginásio da Mace, local tradicional
do Jiu-Jitsu Sul-mato-grossense durante os anos 2000, era apenas mais um
aspirante a lutador buscando sua glória. Todos pareciam grandes e eu pequeno,
um anônimo, que ninguém, além dos meus companheiros de academia, sabia meu
nome. Lembro-me de ver alguns jovens diante de uma câmera de TV e um repórter
entrevistando-os com um microfone, concedendo entrevista como astros daquele
ginásio. Olhei para eles, e pensei: “Um dia eu quero ser o lutador a ser
entrevistado”.
O
meu retorno não foi bom, embora não tenha sido tão ruim quanto a minha estreia
aos doze anos... Acabei por sentir mais uma vez o amargor da derrota, algo que
se repetiria em vários momentos da minha trajetória. Mesmo com a derrota após retornar
ao tatame competitivo, desta vez não tinha o sentimento da vergonha de minha
pré-adolescência, eu realmente queria viver a vida de um lutador, eu acreditava
que eu tinha algo a mostrar, eu queria ser o astro a conceder a entrevista.
Aos
dezesseis anos de idade eu soube o que queria fazer da vida, estranho, mas eu soube
que eu seria um lutador. O primeiro passo foi desistir de sobreviver ao rígido
e pesado ensino militar. Eu acreditava no meu Jiu-Jitsu, e não seria estudando o
dia inteiro que me tornaria um bom lutador. Posso dizer que “desisti” da escola
pelo sonho da luta, pois o Jiu-Jitsu era a única matéria que eu queria
realmente aprender.
Demorei
alguns anos para encontrar minha alma guerreira. Entre muitos tropeços e alguns
poucos lampejos de talento, seguia buscando me firmar. Adorava treinar, nunca
na vida havia tido tanta motivação para isto, mas minhas performances ruins me remetiam
à vergonha tal como no passado. Quando parava para avaliar os meus resultados,
concluía que não servia para ser um lutador, o que era foda, pois também não
servia para estudar.
A
jornada de descobrimento da alma guerreira foi custosa. Sofria a cada treino,
sendo muitas vezes lançado no desespero da sobrevivência. Minha claustrofobia,
mal constante que me acompanhava desde meu início no Jiu-Jitsu, sempre dava as
caras quando estava em um confronto duro, o que fazia minha técnica
simplesmente sumir, e eu sempre acabava engolido por qualquer adversário.
Por
vezes eu tinha ótimas performances no treino, mas que se quer eu conseguia apresentar
na hora da luta do campeonato. Eu era o famoso “leão no treino, gatinho no campeonato”.
A cada derrota eu pensava: “Se eu perder o próximo campeonato, será o último”.
Até que uma cabeçada acidental no treino mudou algo dentro de mim.
Em um treino com um companheiro de equipe, nós dois entramos ao mesmo tempo para derrubar, chocando a cabeça dele contra minha. Fiquei inconsciente momentaneamente, e quando retornei, eu soube que havia lutado até o final do rola, fator que elevou minha confiança, mesmo que de forma estranha, pois pensava, se havia lutado inconsciente, eu era totalmente capaz de lutar em qualquer situação.
Dentre
estes vários “últimos campeonatos”, prestes a completar a maioridade,
conquistei um apelido de lutador, “Dilon”, em alusão ao cantor pop da época
Felipe Dylon. Lancei-me no campeonato mais difícil daquele circuito na época,
tendo perdido até esse momento todos os combates que havia realizado na faixa
azul. Com um metro e oitenta de altura, lutava na categoria pena, eu era um
“varetão” combatendo contra lutadores menores e mais fortes. Foi neste
campeonato que a magia da luta aconteceu.
Naquele dia eu libertei a
minha alma guerreira. Em novembro de 2005, eu nascia como lutador, pela
primeira vez demonstrando tudo o que eu tinha. Toda minha técnica, garra e
estratégia de luta apareceram para mim naquele ginásio. Venci as três lutas que
tive, todas por finalização, e, aos dezessete anos, ganhava o campeonato
estadual peso pena na faixa azul adulto. Naquele momento eu passei de ilustre
desconhecido, para uma jovem promessa, fazendo o nome Dilon não ser só uma
referência a um cantor.
A
partir dessa promessa, fui galgando degraus, melhorando meus combates e
aparecendo para o circuito do Jiu-Jitsu Sul-mato-grossense. Minhas primeiras
inspirações foram as técnicas voadoras. Eu havia treinado muito aqueles
movimentos, trazendo para o palco, que na época nem via o tatame como tal,
minha performance de triângulos voadores, me tornando conhecido por isto: ser o
lutador alto e magrelo que saltava seus triângulos nos oponentes.
Agora vamos correr a
história, não dá tempo de contar todos os anos que vieram em seguida em
detalhes.
Muita coisa rolou na
minha vida, em muitos momentos eu nem sabia o que estava fazendo, mas uma coisa
era certa, era naquele quadrilátero que tudo fazia sentido e a vida valia a
pena. Por anos dediquei a vida para estar lá, era só aquilo que importava, nada
além. Estudos, emprego, família, amigos, namorada, festas, dinheiro, ou
qualquer outra coisa, não eram o foco da minha vida, meu foco era a luta, ser
um lutador era só o que importava.
Durante
duas décadas, passando por várias versões de mim mesmo, vivi a montanha russa
da vida de lutador. Das vitórias com apresentações memoráveis, aos dramas nas
derrotas dignos de novela mexicana, eu experimentei as várias faces daquele
jogo. Por vezes estive no topo do mundo, me sentindo um rei, e por diversas
vezes fui abatido e relegado ao fundo do poço, rastejando na agonia da
vergonha.
Minha
vida nessas duas décadas foi guiada por essa busca. Às vezes não conseguia
racionalizar o que era essa busca, eu somente continuava, ia em frente, não
importando o que havia em volta. Parei por alguns momentos, tentando ter uma
vida “normal”. Estudei, buscando conhecimentos que suscitavam minha
curiosidade, tornei-me bacharel em história, fazendo posteriormente pós-graduação
em antropologia e arqueologia.
Preparava-me para me
desligar daquele universo competitivo. Tive um emprego, quer dizer, uma
profissão que ainda pratico por vezes, arqueólogo, mas que nunca conseguiu
ofuscar minha paixão pelo Jiu-Jitsu. Sempre fui rapidamente dragado de volta, e
quando via, estava novamente no tatame, com um cara na minha frente para eu
combater.
Ganhei
e perdi muita coisa no caminho. Minha ambição, algumas vezes cega, me fez não
enxergar a dimensão do que havia a minha volta. Por muitas vezes vi que somente
a glória daquelas disputas eram o pagamento que fazia minha vida valer a pena.
Da mesma forma que isto me construiu, me destruiu por completo.
Vaidade,
oh, vaidade, quantas vezes me ganhastes? Não foram poucas, diria. Por diversos
momentos me vi envaidecido, inflando meu ego nas alturas, acreditando que eu
era tão bom quanto os “tapinhas” nas costas e parabenizações pelas vitórias
diziam que eu era. Cada versão minha era consumida pela vaidade, passando pelo prodígio
voador, pela fúria dos vinte anos e desaguando em um exótico lutador que teve
seu auge na terceira década de vida.
Rodei
o circuito estadual, conhecendo diversos ginásios pela minha cidade e tantas
outras do meu estado. Viajei para fora dos limites estaduais do Mato Grosso do
Sul, passando por estados em diferentes regiões, onde ia alternando entre
apresentações apagadas, e algumas sublimes, que me fazia ser reconhecido como
um lutador habilidoso pelos locais. Mas foi na Ásia que vivi meu auge, levando
minha técnica desenvolvida no quintal de casa, para palcos internacionais muito
maiores.
Durante dois anos,
aeroportos foram lugar comum em minha vida. Morei em Singapura durante este
tempo, não diria que fiz minha casa, mas que foi um ponto de parada em minha
vida. Na ilha da ilusão e da abundância financeira foi aonde travei uma guerra
em um tatame montando em um Shopping, na qual minha capacidade de escapar das
finalizações de um enorme francês, me fez ser reconhecido para o Jiu-Jitsu
daquela cidade estado insular.
A
partir desta vitória, as portas do mundo se abriram para mim, eu podia escolher
onde lutar. Lutei na terra que é a gênese da arte, realizando meu sonho de
infância, pude sentir na pele e na alma toda a energia da tradição marcial
japonesa. Apresentei-me também na terra dos cangurus, lutando contra o melhor
lutador australiano, não o venci, mas entreguei duas lutas dignas. Lutei na
capital mais caótica que já havia visitado, e mostrei a força da minha técnica
nas Filipinas. Classifiquei-me para um mundial e adentrei a Pirâmide da
Califórnia, embora não tenha feito uma luta memorável, até hoje ela é lembrada
por fazer figuração no duelo de titãs entre Marcus Buchecha e Nicholas
Meregalli, (se você reparar na luta que acontece no fundo, notará que sou eu lutando...).
Depois desta volta ao
mundo, retornei para casa. No auge, tendo conquistado tudo aquilo que havia
sonhado em meus sonhos juvenis de lutador, meu mundo desabou. Um campeão por
fora, na imagem, na edição da vida nas redes sociais, na mente das pessoas que
do outro lado do mundo me viam como um lutador que venceu na vida, mas que mal
sabiam que aquele cara com os braços erguidos e olhar determinado estava
destruído por dentro.
A busca incessante por
aquela glória havia me consumido, me fazendo ser dominado por meus próprios
demônios. Acabei engolido pela depressão, passando de um cara pacato, para uma
figura do esporte local que podia ser visto caindo de bêbado nas esquinas da
vida noturna singapuriana, ou com uma garrafa de vodca seca ao lado no
solitário apartamento em que morava depois que o casamento havia acabado e os
filhos haviam retornado ao Brasil.
No fundo deste poço de
trevas, resolvi abandonar tudo o que havia construído nesta jornada
internacional. Não fazia sentido ser campeão, receber elogios, dinheiro, fama,
um certo poder pela posição de destaque, e me sentir triste e vazio por dentro.
Não pensei muito e voltei para casa, não só pelos meus filhos, mas para salvar
a mim mesmo.
Minha
vida nesta volta ficou mais lenta, menos ambiciosa, e mais permissiva. Durante
estes anos que se seguiram à minha volta para casa, me reconstruí, não só como
lutador, mas como um indivíduo. Meu foco mudou, não restando quase nada daquele
lutador ambicioso, ávido por glórias.
Tive
ainda um percurso competitivo na volta para o Brasil, combatendo contra jovens
lutadores locais, que quando saí do Brasil, ainda eram aspirantes a lutadores
reconhecidos, que vieram neste meio tempo se firmando como postulantes ao
campeão local.
Como
em várias de minhas estreias, na volta acabei sendo derrotado pelo campeão que
havia ficado. Mas era estranho, aquela derrota não me abalou, eu estava em casa
e não sentia mais a vaidade do passado.
Depois,
tive três combates contra lutadores jovens e fortes, que me fizeram jogar para
ganhar na estratégia e experiência de um lutador mais rodado. Fiquei feliz por
perpassar gerações de lutadores locais e ter experimentado lutar contra os
melhores de cada era pela qual passei.
A última dança era
uma forma de lidar com mais de duas décadas de conflitos pessoais, de colocar
um ponto final em uma jornada que me fez ganhar e perder tudo o que eu tinha.
Era hora de matar o eu lutador, de anunciar o local, a data e a hora de sua
morte, e sepultá-lo diante do público, ansiando que o último ato deste
sepultamento fosse ao som dos seus aplausos.
Ato
2.
Os Últimos Ensaios
O
evento escolhido para a última dança foi o primeiro campeonato do ano da
Federação Sul Mato Grossense de Jiu-Jitsu. A escolha foi baseada na ideia de
que ali, naqueles eventos, foi aonde eu nasci, cresci e apareci. Além do fato de
que seria na minha cidade, possibilitando a minha torcida estar presente.
A categoria escolhida foi
o sem kimono, desde novo tomei gosto por essa modalidade de Jiu-Jitsu, na época
em que ainda era conhecida como “submision”. Venho há alguns anos com uma
missão, a de manter vivo o legado da luta sem a indumentária tradicional, e eu
luto para que meus alunos também se contaminem pela minha devoção à modalidade.
Com tudo arquitetado, faltava o principal, ensaiar.
Já
fazia pelo menos quatro anos que eu não me preparava para um campeonato. Neste
tempo, confesso, não senti muita falta do sacrifício e sofrimento dos
treinamentos. Havia feito uma luta dois anos antes, mas que foi feita em uma
experiência estilo lifestyle, deixando fluir a preparação sem uma
programação específica. A luta não foi ruim, mas eu particularmente não gostei
da performance, preferindo retomar ao modelo de realizar um camp de
treinamento. Será que ainda aguentaria fazer um camp completo?
Não
tinha ideia se meu corpo e mente suportariam os níveis de intensidade de
treinamento de um camp. Tinha muitas dúvidas em relação à minha
capacidade, e tive que buscar dentro de mim a fortaleza para cumprir o que
havia prometido para mim e para o público. Mal inaugurou o ano de 2024, iniciei
meu camp para a despedida, sendo essa empreitada a última do tipo em
minha vida.
Dessa vez tive ajuda de
elementos que não fizeram parte de meus treinamentos durante toda a carreira, pois
chegaram em minha vida no pós-ciclo de atleta. Nas medicinas da floresta foi
aonde encontrei minha fortaleza mental e espiritual, levando todas comigo
durante esta última jornada.
Em
minhas interações com estas medicinas, procurava encontrar a força guerreira
que me guiou por anos. Até que a encontrei, mas o guerreiro que ela habita hoje
havia agregado elementos que no passado não existiam. A força guerreira que
desenvolvi no passado entrou em profusão com elementos que hoje compõe uma nova
espécie de ser, mas que ainda tem sua base fundada na experiência pretérita
deste combatente. O que exatamente havia mudado em mim?
Quase
tudo havia mudado, minha relação com o Jiu-Jitsu e com o mundo havia sido
ressignificada, refletindo neste novo momento na minha arte de combater. Não
mais a ferocidade era um guia, não mais a pujança física era necessária, não
era sobre estar pronto para a guerra, era sobre estar pronto para o palco.
Foi
na dança, sim, na dança mesmo, que agreguei outro elemento interessante e
transformador. Passei a estudar os ritmos dançados do samba e do forró em uma
academia de dança, sendo guiado por um talentoso e criterioso casal de mestres.
A dança é uma atividade artística corporal que tento aprender com muito custo,
quase nada do meu passado atlético me auxiliou nessa empreitada.
Se
transportássemos meu Jiu-Jitsu para a dança, eu seria no máximo um faixa azul
esforçado. Mesmo com habilidades limitadas nesta arte, nela aprendi a soltar
mais o meu corpo, a tirar um tanto da timidez que tenho, a dinamizar meus
movimentos, e principalmente, a deixar fluir a minha arte, que, ainda que seja
pouca na dança, no Jiu-Jitsu é abundante.
Levaria
para esta última apresentação um estilo mais dançado, inspirado nesta
experiência com o samba e o forró. Minha ideia era misturar arte e luta em uma
mesma apresentação, era isto, exatamente isto que eu queria levar para o palco.
Sem
sacrifício? Sem dor? Sem sofrimento? Era possível animar assim um guerreiro?
Não sabia ao certo se seria possível, eu simplesmente fiz e tive fé no
resultado. Havia abdicado do lema comum dos lutadores “no pain, no gain”. Eu
tive minha cota de sofrimento nessa preparação, mas passou longe do que senti nos
penosos camps que havia feito no passado. Agora com mais distância,
diria que todo o treinamento fluiu como um rio em direção ao mar.
Os
companheiros que me acompanharam, entraram na mesma frequência que eu estava,
com uma vibração intensa a cada passo dado no camp. Na vida pessoal,
havia recém-casado com a esposa que fortalece minha alma. Luana chegou em minha
vida pouco tempo antes de decidir por fazer esta última dança. Ela agregou ao
meu time a melhor jogadora e técnica possível, pois quem está ao seu lado sofre
e joga junto na preparação, então, diria, sábio aquele que escolhe uma
companheira que o fortalece.
É
inevitável para mim não pensar o quanto o caminho do lutador afetou minha vida
pessoal, seja no quesito familiar ou nas relações amorosas. Não dá para fazer
um balanço por completo só disto, mas diria que por muitas vezes estes dois
caminhos foram conflitantes em minha vida, e deixei muitas vezes o caminho da
luta tomar conta de mim. Desta vez gostaria não mais de reviver o conflito do
passado, harmonizando tudo em uma só direção. O processo seria para me
construir, não para me destruir.
Voltei
para o lugar de onde saíra anos antes, entrando no tatame treino a treino com
um horizonte a se buscar. Seria uma briga contra o relógio... pera aí, não, não
dava para brigar com o relógio. Foi um incessante ensaiar, pensando no que
levar para o palco desta vez: novos elementos? Ou o clássico que já funcionou
no passado? Precisava também buscar o ritmo, o ritmo do meu combate, o ritmo de
ataque e defesa. Além disso, tinha o treinamento físico também, precisava me
fortalecer neste quesito, mas achei melhor deixar de lado aquele sofrimento do
passado de levantar peso, pular caixote, correr ladeira, esses treinamentos
insalubres e desgastantes, dos quais fui cobaia em minha juventude. Enfim, era
muita coisa para se fazer, não dava para fazer num dia só.
Todos
os dias que saia de casa, tinha clareza sobre o risco iminente dos meus
conflitos, medos e receios, mas consegui domar todos eles, eliminando-os do meu
time. Dia a dia, busquei meu auge, treino a treino, buscava me elevar físico,
técnico e mentalmente. E quando o peso da idade começava a dar sinais, me
lembrava do que minha esposa me diz: Você é um garoto!
Vamos
lá, não sou mais tão garoto assim, mas parte desse espírito ainda habita em mim.
Consegui trazer de volta uma faceta minha que estava adormecida, a do “general”
que vai para a guerra. No passado, fui um jovem lutador que treinava e ensinava
ao mesmo tempo. Era uma confusão para meus companheiros de treino saberem se eram
meus alunos ou sparrings. Neste tempo eu era jovem, cheio de energia e
vitalidade, e conseguia fazer as duas coisas, guiar e ser guiado ao mesmo
tempo. E agora mais velho, ainda conseguiria?
A
nostalgia tomou conta de mim. Meu rosto limpo sem barba, evocava meu eu jovem
do passado, resgatando em mim parte daquela vitalidade e desejo. Ao mesmo
tempo, minha mente mais madura, domou o jovem afoito e inconsequente que havia
em mim. Cheguei ao meu porto em segurança, vibrando, sofrendo, não tanto quanto
no passado, mas ainda assim, vivendo as dores e prazeres deste caminho que
escolhi.
Aos
trinta e seis anos recém completados, caminhava pela última estrada do caminho
do lutador. Sentia-me ótimo, dizia para quem me perguntava como estava me
sentindo para a luta: “Acho que nunca me senti tão preparado quanto desta vez”.
Não dizia isto para criar um clima de confiança, apenas, eu realmente sentia
isto em meu ser.
O
que eu sentia ao se aproximar o dia do combate era um desejo, uma vontade, um
anseio quase que incessante de estar naquele palco, de ter aquele combate, de
fazer aquela guerra, de realizar aquele último ato.
Chegara
a hora, veria no palco se o que ensaiei seria o show que esperava. Seria
somente no ginásio do campeonato que teria as respostas para as minhas dúvidas:
O que me levou aqui vinte e quatro anos atrás? Afinal, o que foi essa busca?
Seria lá dentro que eu descobriria, eu precisava saber o que ainda residia na
minha alma guerreira, e que, pela última vez, seria jogada para fora em forma
de Jiu-Jitsu. Se eu parasse para pensar, era muita coisa em jogo..., mas minha
mente era calmaria, pronta para qualquer tormenta que viesse.
Ato
3.
A
Última Dança
O
dia da última dança aproximava-se rapidamente, mas ao mesmo tempo parecia
caminhar em ritmo de conta gotas. Não senti o nervosismo de anos anteriores, o
sentimento era estranho, uma paz de espírito embalada por uma vontade de realizar
o combate.
Em um início de tarde ensolarado, fazia
um calor sentido como um bafo, me despedi de meu lar para não mais “voltar”,
pois quem voltaria seria muito diferente de quem o deixou.
O
frio na barriga sentido no caminho entre minha casa e o ginásio parecia não ter
mudado ao longo dessas mais de duas décadas de vida competitiva. Esperava uma
despedida singela, apenas eu indo ao ginásio lutar no campeonato. Claro que
imaginava atrair alguma atenção, mas nada tão grandioso, apenas uma festa
intimista de um lutador se despedindo do palco. Mas o ginásio não indicava esta
pequena intenção.
A
despedida seria no mesmo ginásio onde em 2011 realizei minha segunda e última
luta de MMA. Senti um dos mais amargos sabores de derrota, a luta catastrófica
para mim, desapontei boa parte do público presente que acreditava piamente na
minha vitória. Era a chance de entregar uma vitória, no MMA não deu...
Ao
adentrar o ginásio, se quer lembrei dessa mancha do passado. Do alto da
arquibancada, avistei na área de luta um grande banner com a minha imagem
estampada. Dias antes, o presidente da Federação Fábio Rocha havia me pedido
uma foto minha para a divulgação do evento. Imaginei que seria algo para as
redes sociais da Federação, apenas. Enviei uma foto minha, na qual estou
fazendo meu ritual e gestos de concentração antes de minha entrada em combate,
tirada nas Filipinas em 2019, preocupado se aquela foto ainda seria atual o
bastante para ser usada.
A
foto, com um enquadramento de baixo para cima valorizando o meu busto, capta o
gesto em que concentro minha “energia” em um triângulo formado pelas mãos. Após
esta concentração, eu realizo um movimento que representa a liberação de minha
energia no tatame, para em seguida pisar com força e anunciar minha entrada no
combate, gesto que se repetiria nesse dia.
Criei
esta ritualística como forma de acalmar-me antes do combate, de criar uma
identidade minha como lutador, e de agir psicologicamente contra meu oponente
na luta. Inspirei-me no anime Dragon Ball Z, em uma técnica mágica de um dos
personagens, e em um jogo de vídeo game antigo do UFC, em que o lutador fechava
os olhos e se colocava nesta postura. Não imaginava um dia ver esta criação estampada
em um evento.
Conforme
fui adentrando o ginásio, embora minha passagem fosse despercebida por gente
que não me conhecia, fui parado por amigos, conhecidos e até desconhecidos, que
me cumprimentavam e comunicavam terem vindo ansiosos para ver o que eu tinha
para esse dia.
Senti
o peso da responsabilidade, havia gente ansiosa e esperançosa para ver minha
performance. Alguns anos antes isso poderia até ter me afetado, mas no meu
atual estado de espírito, isso foi tomado como motivação. Lá estavam também
parceiros de comunicação via internet do Podcast que realizei antes dessa
empreitada. Ao me verem, eles disseram esperar que a câmera registrasse uma
grande performance, eu respondia apenas que era o que eu buscaria.
Junto
comigo estavam minha esposa e minha filha mais nova, Raquel, seria a única
apresentação minha que ambas veriam na vida, eu realmente queria muito que
fosse algo bom. Diferente delas, meus filhos mais velhos, Raphael e Maria
Sophia, acompanharam boa parte de minha carreira, e tê-los comigo mais uma vez
tornaria o dia perfeito.
Amigos,
alunos e entusiastas do meu combate, todos já estavam no ginásio. Foi quando vi
chegando à plateia quem eu mais esperava, meus pais e meus filhos Raphael e
Maria Sophia. Minha mãe eu tinha certeza de que viria, mas ver meu pai lá? Fazia
uns quinze anos que ele não assistia a uma luta minha, e, em toda minha
carreira, tinha visto umas duas ou três lutas no máximo. Fato peculiar, é que
meu pai vinha acompanhado por um amigo dele que havia nos recebido em Porto
Velho quando nos mudamos, achei curioso algo que me lembrasse o meu marco zero.
Eu
aprendi ao longo dos anos a pouco me importar com a opinião alheia. Sabe esse
lance de imagem? Eu não estou nem aí para isto. Se julgam se faço certo ou
errado, se sou bom exemplo ou mau exemplo, se sou correto ou incorreto... Nada
disso me afeta. A única imagem que me preocupa, é a que vou deixar para meus
filhos.
Raphael
e Maria Sophia acompanharam em suas infâncias boa parte do meu auge atlético.
Vivemos juntos a agonia e o êxtase do desbravamento do oriente. Foi por eles
que fui para Singapura, foi por eles que fiquei lá, e foi por eles que voltei
para o Brasil, sem jamais me arrepender de nada, por eles faria tudo novamente.
Quando
ia lutar e eles estavam presentes, eu fingia que era tudo apenas um circo. Era
um circo e o papai era o palhaço, não um palhaço tão bom quanto meu tio Alexandre "Pi", este sim um artista circense autentico, do qual inspirei meu humilde personagem. “Está vendo aquele outro palhaço ali? Ele vai
lutar com o pai no picadeiro, mas é tudo só brincadeira, papai é só um palhaço
deste circo.” Era assim que tentava mostrar a luta para eles, e adorava ser
aquele palhaço lutando. O pai deles só estava brincando de ser artista.
Minha filha mais nova, Raquel, chegou
em minha vida poucos anos antes desta última luta, já uma criança esperta. Ela
escolheu seguir por enquanto o mesmo caminho que eu, e está vivenciando a sua suave
jornada no tatame. Seria a chance de mostrar a ela o que fiz, algo além das
medalhas silenciosas que ornamentam a academia onde ela treina.
Toda
essa atmosfera teria que ser ignorada antes do combate. Não poderia ser afetado
por tudo o que estava a minha volta e os sentimentos que suscitavam. Minha
mente precisava se fechar em si mesma para concentrar todo o seu poder naquele
combate. Era hora de encarar o abismo pela última vez.
Na
área de concentração buscava me aprofundar nos meus pensamentos, me desligando
do externo. Algo difícil por vezes, com gente até neste momento querendo
interagir. Um rapaz passou por mim e disse: “Você que me falaram que tem uma
guarda mágica”, apenas respondi: “Pode ser que sim, espero poder fazer uma
mágica aí hoje”. Com toda esta expectativa, eu aparentava tranquilidade, mas em
mim existia um tanto de conflito.
Sentei
e aguardava que me chamassem. Meus oponentes encontravam-se na área de
concentração também, ao vê-los, os cumprimentei. Foi-se o tempo em que meu
adversário era meu inimigo, somos só atores naquele palco, e contracenar com
eles era o meu papel nesse dia. Aguardo o início do show, está quase na hora do
meu número.
Olhando
para a cortina que separa a área de concentração das áreas de luta, me revejo,
lembro do que foi feita essa trajetória, do quanto estar por trás daquela
cortina foi por muito tempo minha vida.
Revi
o pré-adolescente encontrando sua ferocidade nascente depois do vexame.
Reassisti o jovem magrelo e alto que ostentava um cabelo moicano, voando pelo
ar para realizar as cenas do triângulo voador. Estava lá também o adulto forte
na fúria dos vinte anos, vestindo uma máscara que não era sua, realizando cenas
que não faziam parte do seu ser, mas que despertaram nele o máximo do desmedido
desejo pela guerra. Havia também o lutador maduro e barbudo, que rodou parte do
mundo demonstrando cenas do seu Jiu-Jitsu exótico e esquisito por vezes. Todos
eles habitavam em mim, partes de cada um deles pulsavam ainda naquele momento,
e eu era a construção final de todas estas minhas versões, prestes a encerrar a
longa jornada que as moldaram.
Os olhos diversas vezes marejaram, é foda você pensar que tudo aquilo estava acabando. Ao mesmo tempo que sentia a dor da despedida, meu coração precisava pela última vez jogar para fora em forma de combate o que havia nele. Saudade e alívio, nesse clima me levantei e caminhei em direção ao palco, finalmente chegou a hora da minha última dança.
.Faço a via sacra da área de concentração para a área de combate. Atravesso a cortina que separa as duas áreas. Ao atravessá-la a cena se inicia. O público emanava uma vibração, sentia que a atenção deles estava lá. Neste momento encarno meu personagem, caminho demonstrando relaxamento e atenção ao mesmo tempo, eu podia sentir que estava ali, vivo, diria que mais vivo do que nunca, pronto para entrar no palco.
Posiciono-me
à beira do tatame. Olho para aquele abismo, o qual ao longo da jornada muitas
vezes pareceu me engolir. Tento fechar a minha mente para tudo aquilo que não é
essencial, o passado tinha ficado do lado de fora do ginásio, agora era apenas eu
comigo mesmo, sozinho, sendo eu meu próprio exército. Ao mesmo tempo, me via
como artista pronto para iniciar meu ato, à beira de um palco, à espera da
deixa para iniciar a cena.
Olho
uma última vez para o meu oponente. Neste momento ele também parecia entrar em
modo de combate, fortalecendo seu espírito para o confronto. Quantas vezes
olhei para o lado para ver um oponente? Quantos adversários enfrentei até esse último
dia? Quantas das vezes senti o frio na espinha do perigo advindo do poder de
outro homem? Não tenho numerado estas respostas. Retorno o olhar para frente, é
a hora de entrar e fechar as contas.
A
cena começa com o meu ritual de entrada. Passou um bom tempo desde a última vez
que o realizei, mas os movimentos são coordenados como se os tivesse feito a
vida toda. Libero minha energia ao pisar na área de luta, a minha perna sobe
alto, em seguida meu pé desce sentindo o emborrachado ao bater no tatame, emito
um som seco que me convida para a batalha.
Ah,
estou novamente dentro deste quadrilátero emborrachado! Ao entrar, mesmo sem
paredes ou grades, o espaço parece se fechar, comprimindo o ar, aumentando a
temperatura, a iluminação, e tudo ao redor torna-se intenso. Lá dentro, o menor
movimento é percebido, cada respiração é escutada, isso é um combate, isso é
uma batalha, isso é uma guerra! Mas essa guerra é também somente uma cena, o
tatame também é um palco.
A câmera montada ao lado do tatame indica que uma encenação irá acontecer, ela está ali para registrar a performance dos artistas, e eu, e espero que meu parceiro de cena também, queremos entregar uma grande performance para ela registrar.
Meu corpo está eufórico, executo os movimentos com rapidez, a adrenalina inunda minhas veias e toma conta das minhas funções cerebrais. Frente a frente com meu adversário, é a hora de tudo começar.
Olho para ele, ele não é um inimigo a ser derrotado, se quer o conheço para considerá-lo como tal, apenas tenho que vencer os seus movimentos. Avalio sua postura, procuro por qualquer detalhe que possa me fazer antever as ações que irá tomar. O árbitro grita: “combate!”. Era este o som que mais esperava escutar desde que entrei nessa jornada final.
Começa
a soar na minha mente os acordes de Hey Joe, música da banda O Rappa, como
uma trilha sonora a embalar a cena. “Uh, Uhhh, Uhhhh.. Hey Joe, onde é que você
vai com essa arma aí na mão?...”. Essa foi a batida a inspirar o meu ritmo de
luta, e eu iria dançá-la no palco.
Meu
corpo tinha que dançar, eu tinha que soltar braços, pernas, quadris e pescoço e
entrar no ritmo da batida. Eu reconheço a dimensão daquele espaço, já estive nele
muitas vezes. Faço a primeira volta na área, conheço essas veredas, quero
dançar em seus meandros.
Meu adversário arma-se a espera do primeiro contato. Eu choco o meu corpo contra o dele. Sinto o poder físico da força dos seus músculos. Não estava ali para trocar força, me afasto e não adentro as dimensões do seu poder físico, faço aquilo que nomeei de “Jiu-Jitsu das Ruas”, um misto de valentia e malandragem. Qual o repertório da cena?
Não
sabia exatamente o que apresentar, tinha ensaiado muita coisa nova, mas sabia
que o clássico era o que o público esperava ver. A guarda tartaruga é o hit meu
preferido da plateia. Às vezes até me cansou cantar sempre a mesma música, mas
sempre agradeço por tê-la no meu repertório.
O
meu estilo mudou ao longo dos anos. Cada versão de mim buscou algo novo para se
reinventar. Quando cheguei na faixa preta, senti que não tinha um estilo
definido. Havia copiado por anos lutadores que inspiravam minhas técnicas, mas
me faltava a alma que representasse o meu Jiu-Jitsu. Até que na primeira experiência
de luta na faixa preta eu vi algo que alterou minha visão.
Foi
quando vi o mestre Eduardo Telles, conhecido como o inventor da guarda tartaruga,
lutando na cidade em que eu nasci, no meu primeiro campeonato de faixa preta,
foi que me veio a clarificação. O seu estilo era algo exótico, eu tinha mais de
dez anos de luta, e jamais havia visto nada semelhante. Saí daquela experiência
decidido, eu iria buscar aquele estilo esquisito e pouco conhecido.
Assisti
horas e horas de lutas e tutoriais de Eduardo Telles. Passei mais horas e horas
no tatame segurando todo tipo de ataque na posição de tartaruga. Por talvez
centenas de vezes, tive minhas barreiras defensivas destruídas por completo,
mas mantinha minha fé no processo de me descobrir naquele estilo, a minha
determinação em alcançá-lo permaneceria intacta.
Estrangulamentos
diversos sufocaram e machucaram a minha traqueia, chaves de braços variadas torceram
e retorceram as minhas articulações em vários momentos, e a pressão do peso dos
adversários caindo sem dó sobre meu “casco de tartaruga” desconfiguraram a
musculatura das costas. Tudo isto foi o preço que paguei para criar um estilo,
e caso voltasse no passado, sofreria cada segundo novamente.
Agora
eu estou tocando guarda tartaruga mais uma vez, gero no público a tensão de um
trapezista na corda bamba. Minha cena é esta, a tensão do perigo iminente, a
possibilidade do meu adversário a qualquer momento poder dar o bote final, o
pescoço está ali aparentemente livre. Quem vê de fora acha que entreguei os
pontos ou fiquei maluco. Mas minha movimentação confunde seu repertório de
ataque. Em pouco tempo reconheço suas intenções, me colocando em vantagem. Eu
começo a determinar o ritmo da luta.
O
relógio não está mais contra mim, ele agora favorece minhas ações. Eu olho para
ele apenas para calcular quanto tempo eu ainda tenho de cena, não espero
utilizar todos os míseros cinco minutos que tenho. Os pontos, nem se quer
lembrei deles.
Ganhar pela via dos pontos em algum momento no passado até teve o seu valor, mas agora não, não me apego mais a eles. Esvazio a mente, meu corpo encaixa um movimento através do outro, estou em busca do melhor momento para encerrar a cena, não sei como, mas sei que estou perto.
Começo
uma linha de ataque no braço, a chave de braço conhecida como Kimura do qual o
japonês Kazushi Sakuraba havia me inspirado quando adolescente. Meu oponente
defende seu braço com força para não ser torcido. Mas consigo girá-lo,
abandonando-o em seguida, e ameaço atacar o joelho dele, no passado venci
algumas lutas atacando a linha de pernas, eu podia ser perigoso fazendo aquilo.
Meu oponente sente o perigo
iminente, defende seu joelho e busca subir para cessar o ataque de vez. Mas
neste movimento de defesa, uso o espaço criado para me virar com toda a
velocidade que consigo, inaugurando a cena final daquele ato.
Sinto
no processo de virada o meu braço envolver do pescoço do meu oponente. Já havia
estado nessa situação no passado, e por duas vezes, no último ajuste do
estrangulamento, ela me escapou..., mas na última vez que havia tentado,
finalmente ela submeteu o meu oponente. Confio no golpe, aposto tudo o que
tinha nele.
Sinto o pescoço do meu oponente na
parte interna do cadeado formado pelos meus braços, ao chegar com o meu corpo
no solo, preparo para tencionar meus braços até fazê-lo desistir, eu iria
colocar tudo neste golpe, não haveria mais um amanhã para que essa técnica se
ajustasse, era tudo ou nada.
Meu
corpo se choca com o solo, trazendo meu oponente junto comigo. Preparo-me para
aplicar toda minha força em uma submissão de pescoço chamada guilhotina, mas
antes que isso se realize, sinto o leve batucar de seus tapas na lateral do meu
corpo, está anunciada a desistência do meu oponente. Não acredito, acabou...
Para
finalizar a cena, eu tinha que comemorar a vitória. Foram duas décadas ansiando
por esse momento. Por noites a fio sonhei em viver este momento, a apoteose da
vitória.
Para
mim este momento é como um gol em uma partida de futebol. No futebol não tive
sorte, mas no Jiu-Jitsu fiz meus gols, alguns bem bonitos, diga-se de passagem.
Foram momentos de êxtase que ficaram marcados na memória, ao finalizar o meu
oponente viajei nessa emoção. O tatame foi o meu gramado.
Abro
meus braços para a torcida, ouço a plateia vibrar. Do alto de minha comemoração, consigo
enxergar, há poucos metros de distância, meus filhos na grade comemorando como
se eu realmente fosse um artilheiro do seu time de coração.
É
para eles essa cena, é para eles essa alegria, é para eles essa emoção. Ao lado
deles, me assistem os olhos mais brilhantes que eu já vi em um rosto de mulher,
os olhos castanho claros de minha esposa. Consegui, houve tempo o bastante para
eu mostrar a ela minha arte.
Tenho
meu braço erguido novamente, mais uma vez, dentre a tantas vezes que o árbitro
o içou ao ar demonstrando vitória ou o manteve imóvel junto ao corpo decretando
minha derrota. Saio do palco, a minha primeira cena terminara, parece que foi
uma boa cena.
Após
uma boa apresentação, sou tomado pela euforia e alívio simultaneamente. Sempre
a primeira luta, é só ela que existe quando estamos em uma competição, é
preciso sobreviver a ela para poder vislumbrar a luz brilhante da conquista
total. Passei desta luta, agora só restava uma, aquela que seria realmente a
última dança.
Sinto
que minha cena teve o efeito desejado, parecia que o ginásio inteiro gostaria
de falar comigo naquele momento. Tinha gente impressionada, tinha gente confusa
com o movimento que realizei, e gente que ainda não acreditava que eu havia
feito aquilo. Gostaria de atender a todos, mas tinha que me manter focado, pois
havia de realizar o ato final.
O oponente do último combate é um lutador menos experiente que eu neste jogo. Compartilhamos a mesma equipe, o mesmo uniforme, mas estávamos ali por propósitos distintos. Comunico a Dani Biazi, meu oponente, que gostaria de fazer a luta, minha torcida esperava, quer dizer, ansiava por me ver atuando mais uma vez. Ele concorda, e com muito respeito, nos preparamos para esta luta final.
Mantenho-me firme e focado, já figurei em vários lados nestes confrontos. Já fui a zebra, com chances muito pequenas de vitória, já fui também o franco atirador, mesmo sem ser o favorito, eu era perigoso no confronto, e fui por algumas vezes o favorito, papel que particularmente nunca gostei de desempenhar, acho que isso desperta responsabilidade e vaidade ao mesmo tempo.
Meu
protocolo com esse favoritismo nas mãos é respeitar o poder de meu oponente,
respeitar sua capacidade como lutador, visto que, lá dentro, o menor descuido
diante de um homem capaz, pode liquidar o seu favoritismo em segundos. “Vou
entrar e dar cem por cento de mim”, é isso que penso ser o mais respeitoso a se
fazer.
Chegou
a hora, o último ato se aproxima, os passos que darei daqui para frente serão os
últimos, deixarei para trás toda a história que construí até aqui.
Ato 3.
A
Última Cena
Parece
que minha mente vai sendo esvaziada conforme avanço pelo trajeto da área de
concentração à área da luta. Vai ficando para trás todo medo e ansiedade que me
acompanharam, nesta que, por muitas vezes, foi minha via Crúcis. Tanto tempo se
passou desde o primeiro passo, e, neste momento, eu teria a chance de encerrar minha
história dessa jornada, os parágrafos finais, os quais há muito tempo imaginava
escrever.
No
momento em que atravesso a cortina e apareço no palco, o público vibra, meu
público, o qual eu estava amando entreter, e acredito que, de longe, foi o
melhor público que havia tido na carreira. É para isso que o artista se lança
em sua arte, pelo público, é por eles que sangra em cena, é para entretê-lo que
horas e horas são sacrificadas no ensaio. Para meu público, aquela era a última
cena deste modesto, e por tantas vezes, tímido ator desse teatro visceral que é
a luta.
Encontro-me
à beira do abismo. Vinte quatro anos atrás, estar ali foi como me atirar em uma
dimensão assustadora, agora, eu só aguardo e aprecio a vista deste conhecido e
ao mesmo tempo estranho lugar. A vida é feita do presente, o passado não existe
mais e não há certeza nenhuma sobre o futuro. Neste instante, eu era somente
isto, um ser, me sentia mais vivo do que nunca.
Os movimentos da cena estão gravados no corpo e na mente, apenas ligo meu corpo, o diretor em minha cabeça grita “ação!”, e me lanço pela última vez nos caminhos desconhecidos de um tatame de campeonato. Quando meu pé toca o emborrachado do tatame, me sinto sugado para dentro desta dimensão, aflorando em mim todas as melhores emoções que estar ali me provoca. O último chamado para a luta se anuncia: “combate!”.
Meu corpo busca o bailadoda luta. Minha mente parecia vazia, apenas respondendo ao que meu oponente sugeria. Meu ritmo desta vez desliza, avanço nos espaços que encontro para explorar. Não tenho planejado um golpe para finalizar a cena, mas não quero alongá-la mais do que o necessário, quero apenas realizá-la com respeito, profissionalismo e arte.
Meus
braços deslizam por cima dos ombros do meu oponente, se conectam ao seu pescoço
e como uma espécie de ser invertebrado se enrolam nele. Comprimo meus músculos,
mantendo e aumentando a pressão conforme meu adversário tenta resistir. Consigo
sentir o fluxo de ar do meu oponente sendo cortado, apenas me concentro no
momento de sua desistência.
Quando
sinto o toque, pela última vez na carreira competitiva, dos três tapas, o
objetivo máximo de quem adentra a arena de combate, percebo que a parte mais
difícil da cena havia se encerrado.
Tão
logo sinto a sua desistência, largo meu oponente rapidamente para não causar
nenhum dano a mais que o necessário. Pareço não sentir nada por alguns
segundos. Minha mente ficou inerte por um tempo curto, mas que evocou nela uma
catarse. Consigo sorrir, mas dentro de mim um imenso vazio se impõe.
Coloco
minhas mãos no rosto, buscando na escuridão de meus pensamentos forças para
alinhar meus sentimentos. Quando minhas mãos se afastam de meu rosto, e abro
meus olhos, vejo o clarão das luzes brancas do ginásio. Aprecio o teto, foi
dentro daquele espaço que minha vida se fez. Sinto-me pronto para encerrar a última
cena deste último ato.
Coloco-me de pé para uma última vez reverenciar o público, que ao final, posso dizer que foi meu nesse dia. O público parecia uma torcida de futebol que festeja um título de seu time de coração.
Respeitável público! Este palhaço vai deixar o picadeiro de uma vez por todas! Espero que tenham apreciado o que ele tinha para mostrar, o que ele pôde fazer para entretê-los, para carregá-los com ele dentro de uma emoção, era só isso que este palhaço queria.
Meu
olhar por um momento não conseguia focar em ninguém, rapidamente vejo o rosto
dos meus filhos recostados sobre a grade de proteção, mas meu olhar para e se
foca em uma pessoa, aquela que fez essa jornada acontecer.
Em uma posição mais elevada da escadaria do ginásio, foco meu olhar na figura de minha mãe, que está de pé, aplaudindo, quase que dando um pequeno salto, e sorrindo como poucas vezes vi na vida. Ah... se nesse ginásio nem uma viva alma além dela estivesse assistindo meu combate, se o silêncio sepulcral de um espaço vazio fosse perturbado apenas pelo contido comemorar daquela senhora, eu escutaria ressoar em meus ouvidos o coral caótico de um Maracanã lotado em êxtase comemorando o gol do título do time da casa.
Minha
mãe era toda uma plateia me aplaudindo, a maior plateia que eu já havia visto
desde que comecei nesse tipo de show. Nem toda beleza do mundo que eu havia
visto e experimentado, se comparava ao esplendor daquele sorriso. Não havia
mais um lutador no alto dos seus trinta e seis anos se despedindo de sua
carreira, havia somente um pequeno garoto magrelo de doze anos, gritando: “Hey,
mãe! Olha o que eu sei fazer!”, no fundo, no fundo, eu era apenas aquele
garotinho
Era
esse momento que havia buscado, foi para ver aquele sorriso do tatame que eu
havia lutado tanto. Não foi pela glória, não havia sido pela medalha, ou pela
honra, nem tão pouco pelo dinheiro, fama, poder... Não foi por nada disto! Nesse
momento, meu coração dizia a resposta da busca, todas aquelas performances
foram por fazer meu jiu-jitsu despertar o sorriso dela. Eu podia dar a resposta para minha mãe sobre
o questionamento que me fizera mais de vinte anos antes: “mãe, é assim que eu
quero eu quero sair daqui”.
Eu
havia cumprido minha missão, iniciada cerca de vinte quatro anos antes. Deixei
naquele tatame tudo o que tinha e o que não tinha. Sangrei por aquele palco, sacrifiquei
grande parte da saúde de meu corpo e alma para estar nele, para performar nele,
para fazer as cenas que sonhei realizar.
Sentia
em minha alma que havia terminado minha missão, me restando a volta para casa,
para viver em paz comigo mesmo, para dormir a noite e não mais sentir o apego
pelo combate não combatido, para não remoer no fundo dos meus pensamentos a
glória que poderia ter vivido.
Se fiz muito? Não sei. Se fiz pouco? Acho que não. Se Fiz o tanto que poderia? Talvez. Para estas questões, respondo que, para alguns foi pouco, para outros foi muito, e para mim foi o bastante.
Saio
desta jornada com o coração leve e a alma lavada, tranquilo por ter deixado ali
toda a arte em forma de marcialidade que podia. Aquele no palco fui eu, aquele
sou eu, mantendo sempre em mim, até meu último respiro, o espírito de um
artista marcial.
Meu
amigo, e agora sucessor nesta posição da busca por ser o ator principal das
peças da luta, Luan Polaco, me disse uma frase, dita por um outro amigo, que
resume bem o que eu queria: ‘Um artista ao deixar o palco deve deixar no
público saudade, e não alívio”.
É
hora de sair do palco, acabou minha cena. Saio agradecendo meu último parceiro
de palco, de tantos oponentes, ele foi o último que enfrentei, tenho por ele um
respeito imenso por ter dividido este momento comigo, por ter sido o último
desafio para fechar minha história.
Havia
planejado meu ritual de despedida, quase como que um Arakiri (suicídio
ritualístico dos samurais) simbólico, em que o eu lutador seria abatido e
enterrado naquela arena. Quando pensava em parar, pensava em deixar como última
imagem meu auge, acredito que nesse dia cumpri este desejo, deixei no tatame o
que de melhor havia em minha luta.
Na
beira do tatame retiro minha rashguard, a dobro, com um carinho especial, e a
deixo lá na beira mesmo, tal como uma lápide, que indica que ali naquele espaço
se encerrou a jornada de um guerreiro, de um artista, ou qualquer outro nome
que deem a quem ali busca viver.
Beijo
o tatame, esse solo emborrachado foi por muito tempo tudo que eu tinha, e para
mim mesmo, ou para espaço sacro que aquele local representa, demonstro minha
humilde gratidão. Sussurro baixinho: “muito obrigado por tudo!”.
Me levanto, de peito nu, agora já enterrado como lutador, lanço as mãos em um gesto que indica o final daquela jornada. Era assim, exatamente assim, que havia imaginado minha última cena. Nos últimos anos antes deste desfecho, havia projetado inúmeras vezes a cena, mas em nenhuma destas projeções, eu imaginava o tamanho imenso daquela emoção.
Meu
livro, meu filme, minha jornada, minha vida, seja lá o que foi esta loucura ali
dentro, estava encerrado. Foi da maneira que eu gostaria que fosse, uma jornada
iniciada na derrota, e que rodou, rodou, até encontrar seu caminho para morrer
no doce lago da vitória.
Encerrar a jornada no lugar em que fiz o maior percurso dela foi importante. Não faço ideia do local reservado na história do Jiu-Jitsu Sul-Mato-Grossense que me cabe. Eu fui apenas um filho da terra que buscou mostrar aonde fosse do que a luta de nosso povo é feita.
Em todos os cantos que percorri para fora da mesopotâmia dos rios Paraguai e Paraná, apenas queria apresentar um lugar, que no interior de um país ao Sul da América, desenvolvia-se também aquela arte marcial. Levei as cores do meu estado o mais longe que minhas habilidades puderam me levar, e isso foi o tanto que pude fazer para orgulhar minha terra.
Não
sou alguém de sentimentos patrióticos exacerbados, mas confesso que levantar a
bandeira do meu estado, em lugares que se quer as pessoas conseguiam pronunciar
o nome Mato Grosso do Sul, me encheu de orgulho por ser de onde eu vim.
Não tinha a ideia de deixar minha marca como um lutador invencível, alguém que só perde quando fatores externos interferem no caminho natural de um ser vencedor. Nada, perder faz parte do jogo, faz parte da cena.
É
clichê dizer que nas derrotas são o momento que mais aprendemos, mas é um clichê
válido para muitas histórias, e pra minha também. Fui derrotado de todas as
maneiras possíveis, por pontuação mínima, por pontuação que parecia jogo de
basquete, finalizado nos braços de várias formas, estrangulado de várias
maneiras, menos nas pernas, ali ninguém me pegou, mas vamos lá, eu não peguei a
geração em que ficou popular atacar as pernas. Em todas estas derrotas, deu pra
extrair algo de positivo, ensinamentos que me fizeram ser um artista marcial
muito melhor do que era antes destas experiencias.
Não
tenho vergonha das derrotas que tive, aprendi a conviver com todas elas. Não
mais elas me assombram como fantasmas do passado, consigo até mesmo me divertir
com a maioria delas. Derrota e vitória são só partes da cena, tive que atuar
nos dois papéis, e tanto uma quanto outra, foram experiencias que me construíram,
mas que a partir daquele momento, não mais aconteceriam.
No
dia vinte e quatro de fevereiro de dois mil e vinte e quatro morreu parte de
mim, não foi uma morte triste, trágica e dolorosa, mas sim uma morte que eu
escolhi, no palco, para o público, ao som dos aplausos, na alegria da cena e
lamento ao mesmo tempo por ter sido a última aparição daquele artista. Na
lápide imaginária, apenas uma frase bastaria para resumir quem eu fui ali:
Ato
4.
O
Dia depois de Amanhã do Crepúsculo de um Lutador
Estou
saindo de cena, agora posso me jogar na plateia. Na primeira fileira estão meus
filhos, todos os três, tal como eu gostaria que fosse. Digo a Raphael, meu
filho mais velho o seguinte: “você me dá sorte, não dá para perder contigo aqui”.
Maria Sophia nunca se interessou pelos combates, mas vibrou em cada vitória
como a mais efusiva fã daquela luta. Eles são meus medalhões, Raphael e Maria
Sophia assistiram minhas alegrias e dores de viver naquele caminho, só com eles
lá que faria sentido terminar esta história.
Espero ter motivado Raquel, a mais nova da
minha pequena trupe de filhos. Não projeto que ela tenha obrigação de ser uma
campeã no jiu-jitsu, igual ou melhor que eu, se ela assim quiser, terá todo meu
apoio, mas o caminho é só dela, nesta luta só queria deixar para ela o
ensinamento do gosto pelo combate. Para todos eles, o que o pai deles queria
mostrar era: seja no que for que eles queiram fazer, se acreditarem realmente
no que estão fazendo, que coloquem todo o espírito deles nisto.
Caminho
para fora da arena, minha cena já terminou, agora o palco é daqueles que ainda
queima em seu coração a chama da esperança da vitória no combate, em mim, esse
fogo não ardia mais. Na beira do tatame havia uma câmera, o entrevistador me fez
um convite para uma última tarefa, não diria tarefa, para mim foi o fechamento
de uma história que começou lá trás quando vi aqueles garotos sendo
entrevistados.
Naquele
tempo, quando meus olhos vagueavam por aquele espaço competitivo buscando um
sonho, eu era um entre tantos jovens lutadores que sonhava em provar sua
capacidade naquele ambiente. Eu sonhava em dar a entrevista um dia, ao longo da
carreira, em alguns momentos, eu fui o entrevistado, mas quase vinte anos
depois aquela última entrevista tinha um gosto especial.
Fora
do palco, recebo muitos cumprimentos, advindos de gente que eu conheço e desconhecidos.
Tento me doar ao máximo para retribuir o carinho das pessoas, mas preciso muito
ver minha família, ela foi o motor que me fez seguir até o final desta jornada.
Meu pai me cumprimenta, de maneira contida, como é característico de um pai durão dos anos 1980. Coronel Colino é em essência um militar, demonstra pouco suas emoções. Ele nunca compreendeu muito bem o que eu faço, na mente dele muitas vezes aquilo era apenas algo que ele me colocou e meu irmão para fazermos, jamais ele imaginou que seria naquela atividade que eu seguiria meu caminho.
Eu e meu pai discordamos em quase tudo, nossas visões de mundo são bem opostas. Por muitas vezes, o jiu-jitsu foi uma guerra fria a se travar com ele, que nunca viu este caminho como sólido e seguro. Em partes, boa parte, ele tem razão nisto, mas meu coração nunca conseguiu sentir qualquer pulsar pelo caminho seguro, pelo caminho de prosperidade financeira, somente o tatame o fazia pulsar.
Mesmo
discordando em tudo, meu pai sempre foi o porto seguro, que incentivou cada
passo, sem nunca ter se quer apreciado a escolha daqueles passos. Para mim esse
é o maior gesto de amor de um pai. Eu não senti falta nenhuma da presença do
meu pai nos meus momentos, ele sempre esteve lá, dentro de mim, na minha
genética e filosofia, lutando junto, me fortalecendo para que ali estivesse com
saúde para combater.
Faltava
falar com minha esposa, ela foi a companheira ideal deste último capítulo. É
estranho pensar que só a conheci dois meses antes disto, para mim parece que
ela fez parte integrante de mim muito antes.
Tive algumas companheiras neste
trajeto, aprendi em partes conviver meu amor por elas e meu amor por minha
arte. Por muitos momentos estes dois amores se conflitaram, resistindo sempre a
arte como vencedora.
Tentei
aprender a dividir meus sentimentos, dar ao seu devido tempo a atenção que cada
um necessita. Lamento que por diversas vezes o ego e a vaidade tenham machucado
o amor de minhas companheiras, este foi um forte efeito colateral de minha
busca.
Sigo
aprendendo, acho que aprendi muito mais sobre o jiu-jitsu do que sobre o amor.
Não saberia ao certo que faixa sou neste aspecto da vida, sei lá, talvez uma
roxa por experiência, tendo falhado muito mais nesse aspecto da vida do que no
tatame. Mas eu ganhei uma nova chance de me elevar neste ponto da vida, e só
tenho a agradecer ao universo por ter me dado a chance de estar aprendendo
sobre isto com a esposa que tenho atualmente (e espero que nos anos futuros a
esta publicação).
Luana
chegou no momento chave, depois de uma tempestade em minha vida. Na
reconstrução de meu ser, encontrei nela uma companheira que me fortaleceu, ama
as artes tanto quanto eu, sabe, acho que era isso que eu precisava para viver
plenamente estes dois amores.
Sinto
falta do meu irmão, fisicamente ele não estava ali, mas sentia a energia nossa
naquilo. Foi nosso amor fraterno que me guiou para lá, foi ele que me fez ter
de mostrar força. Meu irmão era meu amigo e adversário dentro de casa, fora dela,
éramos nós contra o mundo. Até hoje, nas oportunidades em que estamos frente a
frente em um tatame, é como ver o meu espelho, refletindo aquilo que me moldou,
refletindo quem me moldou, quase como partes de um mesmo ser em espírito. Meu
irmão Marcello é meu espelho de batalha, um guerreiro que até hoje me arrepia
encarar, pois só eu sei do poder de sua força de combate. Nos dividimos em um
momento da vida, cada um por um caminho diferente e distante, mas sempre
conectados por um tipo de conexão que só irmãos têm, ainda mais forte quando
dentro de um tatame.
Minha mãe foi a essência desta jornada. Dela eu sempre sei o que virá, independente do resultado que meus esforços dentro daquele tatame geravam, ela pareceu sempre animada em ver aquilo, um tanto preocupada, mas apreciando o espetáculo tal como ele é. Recebo dela todo o carinho, mas cara a cara não consegui expressar o que estas linhas traduzem, minhas emoções afloram melhor aqui do que pessoalmente.
Subo pela última vez em um pódio, sem muito apego por esse lugar. Estar ali no mais alto posto por muito tempo foi meu sonho, objetivo, meta, busca, sei lá o que mais... agora, para mim, estar em primeiro lugar era somente o lugar que aquele dia meu destino me reservou, nada além. Medalha no peito, aquela era a última de minha coleção, que agora pode ser selada de vez.
“Muito
obrigo! Valeu! Porra, muito obrigado mesmo!”. São as respostas que tenho para
quem me felicita. Eu teria uma lista tão grande de agradecimentos, pois não foi
sozinho que as coisas aconteceram. Tive tanta, mas tanta ajuda ao longo desses
anos, que seria difícil nomear todo mundo que me fortaleceu. Foram professores,
mestres que compartilharam e me inspiraram, parceiros de treinos, alunos,
principais motivadores de minha busca por lutar, amigos que incentivaram, gente
que acreditou no meu potencial, preparadores físicos, fisioterapeutas,
dirigentes, patrocinadores... enfim, muita gente mesmo, que tornaria este um
texto quase que integral de agradecimentos.
Mas, tem um elemento que acredito que mereça um agradecimento especial, meus adversários. Se não fossem eles, nada disso teria acontecido. Sem o adversário não tem luta, sem eles não tem peça, sem eles não tem cena, por isso, sempre clamei ao universo para tê-los; e depois de um tempo, comecei a pedir os mais poderosos possíveis. Só com eles que consegui testar meu poder de combate, só com eles tive uma razão para dia a dia buscar o aprimoramento, muito obrigado, meus adversários, agradeço pelas cenas que nossos duelos deixaram.
Por
anos me questionei se eu era um lutador. Afinal, o que é um lutador? Durante
boa parte do trajeto me questionei sobre isso. Por um tempo acreditei que
somente me testando no mais alto nível de combate que poderia ser um lutador,
me jogando em uma corrida incessante pelo Vale Tudo, que virou MMA, feito
jamais alcançado, mas que valeu a pena ter vivido também.
Houve momentos que acreditava que lutador era somente o campeão da categoria, quando não era possível sê-lo, me sentia apenas um farsante se passando por lutador. Depois, acreditei que somente aquele que rentabiliza seu combate, não necessitando de nenhuma atividade além, poderia ser considerado lutador, ledo engano...
Voltei
para casa depois de tudo ter acabado. Aprendi ao longo dos anos que quando
passa toda a festa, e você fecha os olhos para dormir, só sobra você e você
mesmo. Por diversas vezes em minha vida, no mais alto da vitória, eu estava
sozinho, mesmo com muita gente ao lado querendo estar junto. Desta vez, eu não
me sentia só, muito pelo contrário, eu me sentia plenamente satisfeito e bem
acompanhado, não mais enxergando no escuro dos pensamentos um abismo vazio.
Eu
iria dormir naquela noite em paz comigo mesmo. Não havia sobrado mais nenhuma
dúvida, nenhum arrependimento, culpa ou insegurança. Como disse antes de sair
de minha casa, aquele que saiu não mais iria voltar, e não voltou. Fisicamente
ele retornou o mesmo, mas por dentro havia se transformado por inteiro.
Nos
dias subsequentes, por vezes a peça que apresentei no campeonato era lembrada,
com gente destacando o gosto de tê-la assistido, e gente lamentando ter sido a
última. Quando jovem, queria ter um highlight (vídeo de melhores momentos) meu.
Vislumbrava em minha imaginação músicas e performances que dessem vida ao
espetáculo do vídeo. Sempre busquei o registro da imagem como parte substancial
da história, faltava ver como havia ficado este último enredo.
Um
lutador tem de escrever, produzir, dirigir e atuar seu próprio filme. Dei o
máximo que pude para entregar boas cenas, mas às vezes faltou uma boa câmera
que captasse os momentos, que hoje só eu me lembro, faltou um bom cinegrafista
que conseguisse captar o momento crucial. Mas nesta última cena do filme, ficou
tudo perfeito.
Câmera,
cena, gesto e atuação, saiu tudo melhor que no roteiro. Para as lentes de um
cineasta talentoso, Rômulo Vídeos, fiz meu último highlight. Algo bem distante
das primeiras filmagens das minhas lutas, feitas em câmeras digitais do início
desta tecnologia, borrões em que mal consigo me reconhecer quando assisto.
Em plenas cores e nítida resolução, consegui fazer minha parte, atuar para câmera da melhor maneira possível, deixei registrado parte da emoção que me tomou, parte do que a inspiração deste último ato concebeu. As últimas cenas de um filme que quem futuramente assistir, verá parte essencial do meu ser.
Após
a publicação do vídeo, fui questionado várias vezes sobre se era realmente a
última apresentação. Respondi, e ainda respondo, de maneira categórica, que foi
sim aquela foi a última apresentação. Minha busca na dimensão competitiva do jiu-jitsu
havia terminado, mas se encerrou somente nesse ponto, pois minha busca pela
excelência de artista marcial persiste.
Confesso
que nos primeiros dias bateu um vazio, pois não haveria mais uma luta futura,
não mais haveria minha imaginação fantasiando cenas de um combate que ainda não
havia acontecido. Nada, não tinha mais um oponente no horizonte, não haveria
mais uma cena a se fazer, tudo já havia sido feito e estava terminado.
Tive
que lidar com este sentimento de vazio, me concentrando em intensificar minha
arte, seja na escrita ou no jiu-jitsu no dia a dia. O palco faz falta, mas para
mim, é um caso encerrado em minha vida, sem possibilidade de repensar, a não
ser que alguém aí queira oferecer alguns milhares de dólares, cenário
praticamente impossível, mas só assim, quem sabe...
Meus
confrontos, duelos, batalhas, guerras, embates, apresentações, shows... e tudo
mais que possa ter sido, residem somente nos registros que deixaram. Somente
nos contos que a memórias delas me evocam, é que posso dizer um pouco de que
tipo de lutador eu fui. A arte que
carrego em minha alma continua mais viva do que nunca, deixando de existir
somente uma galáxia deste universo imenso que é o jiu-jitsu como arte marcial.
Quando
chego no hall da academia para mais um dia exercer meu ofício de guiar algum
viajante deste caminho, observo o suporte de madeira ostentando minhas
medalhas. Todas tão mudas quanto qualquer objeto ao seu redor, falando apenas
comigo, sussurrando por vezes, e em outros momentos gritando de maneira
estridente, despertando em minha mente toda uma gama de memórias, sentimentos e
emoções daquela jornada. Afinal, são só pedaços de metais, mas o que estes
pedaços me contam são parte de um dos capítulos mais importantes do livro de
minha existência.
Caminho agora como um ex-lutador, como alguém que um dia direcionou toda sua busca em prol de um objetivo. Cumpri minha missão e agora passo para os bastidores, observando outros em suas cenas, auxiliando aqueles que de alguma forma no seu olhar eu consiga enxergar o lutador que fui um dia.
Era
isso, somente isso que eu tinha para contar. Agora vocês sabem o quanto eu
caminhei para chegar até aqui, essas foram as milhas e milhas que percorri
antes de dormir. Ainda que os registros contem parte desta história, em minha
mente cada passo dela ainda ressoa, me lembrando quem eu fui, me contando quem
sou, em minha alma, um lutador.
Deixei
no tatame tudo que podia, lutei com todo meu coração, toda minha alma e todo
meu poder. E agora este palhaço se despede para não mais voltar ao picadeiro.
Dedico
minha carreira de lutador a minha mãe, Valéria Couto Souto Maior Colino:
De
você, por você, e para você. Muito obrigado, te amo mãe!
























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