O Rappa, a Trilha Sonora da Poesia Jiujiteira
O
Rappa, pra quem tem o infortúnio de não saber quem é, ou o que é, lhes dou esta
dica valiosa, para conhecerem através da música parte da alma que reside no
Jiu-Jitsu Brasileiro. Esta banda carioca, que infelizmente já encerrou suas
atividades, foi o som que embalou os sonhos dos Jiujiteiros entre final dos
anos 90, perpassando até seu final, já na década de 2010.
A
banda surge na explosão cultural da década de 1990, trazendo para o palco uma
mistura de ritmos única, que reuniu: Rock, Ska, Hip Hop e Reggae, tudo isto
misturado com a sonoridade típica brasileira. O Rappa conseguiu transcender
barreiras, e floresceu seu som na memória fonográfica de gerações. Como esse
texto não é um artigo da Wikipédia, então já paremos por aqui nas descrições, e
vamos direto ao assunto.
A
musicalidade de O Rappa se conecta intrinsicamente ao Jiu-Jitsu Brasileiro.
Essa conexão surge de uma sincera identificação dos praticantes daquela arte
marcial de origem japonesa e abrasileirada em um processo histórico curioso.
Mas por que o som de O Rappa se conectou tanto com os praticantes do Jiu-Jitsu
Brasileiro? Diria que a resposta passa por um espelhamento no tatame do que as
letras e som evocavam.
Com um som forte e de letras
poderosas, pelos tatames Brasil afora se brigava o Jiu-Jitsu ao som da trilha
sonora de O Rappa. De dentro do tatame, podíamos sentir o poder das letras, que
para nós referenciava luta, força, resistência, resiliência e coragem para
encarar a adversidade. Pensando nisso, resolvi contar uma história, uma sobre
mais um Jiujiteiro simples do asfalto, vivendo o rodo cotidiano do tatame:
Hoje eu estou na paz, eu só quero ir treinar Jiu-Jitsu, se não, eu vou explodir, mas vocês não vão ver os meus pedaços por aí. Então, me deixa treinar, que hoje eu to de bobeira, bobeira... Saí da frente, porque minha alma ta armada e apontada para cara do sossego. As vezes eu falo com a vida, as vezes é ela quem diz, e hoje só sei que tudo que eu preciso é sair na mão pra encontrar a paz que eu quero conservar pra tentar ser feliz.
No
Tatame é onde eu brindo a casa, brindo a vida, com meus amores e minha família.
Difícil não pensar que estou em casa, pois ouvi dizer que nação não é bandeira,
nação não é, nação é união, família não é sangue, família família é, família é
sintonia. Por muito tempo atirei minhas pedras no mundo, agora no Jiu-Jitsu que
eu sinto estas pedras estão voando na direção certa.
Hoje o treino tá pesado. Se meus irmãos de treino são Exu, eu sou Iemanjá, se eles matam o bicho, eu tomo banho de mar, com o corpo fechado ninguém vai me pegar, vamos com tudo, hoje o treino vai ser lado A, lado B, lado B, lado A. Podemos as vezes até ser duros um com os outros, mas isso é porque a vitória de um homem as vezes se esconde num gesto forte que só ele pode ter. Pra ficar bom nessa parada eu já entendi, tem que ser guerreiro e trabalhador, e todo dia eu vou encarar.
Dou muito valor ao Jiu-Jitsu que tenho hoje, já que eu sei que o nascimento de uma alma guerreira é coisa demorada, não é partido ou jazz em que se improvise, não é casa moldada, laje que suba fácil, a natureza da gente não disse me disse.
Tanta guerra na minha vida tem um motivo, ir encarar a derradeira guerra, o campeonato. Será? Tenho certeza que sim, pois navegar é preciso, se não a rotina te cansa. Só quando mergulho nesse mar de gente, entendo o porque ainda faço isso. O sonho do Jiu-Jitsu, esse sem dúvidas é a luz que eu preciso, luz que ilumina minhas tribos da juízo, então, é nesse mar de gente que eu mergulho por inteiro.
Hey Joe! Aonde é que você vai com esse kimono aí na mão?
É dia de campeonato, hoje vou de ficar o dia todo dentro de um ginásio, esperando minha luta, assim eu não vou curtir o brilho intenso da manhã. Só vindo aqui e me provando é que consegui impor minha moral. Posso até estar nervoso, mas sei que fugir daqui não é um atalho para sair dessa condição. Olhando essa multidão, eu me lembro da época dos Pitboys, em que jiujiteiro era caçado e visto sempre como um animal. Era sirene ligada, os homi chegando, trick e track e boom para todo lado. Mas eu sei que menos de cinco por cento dos lutadores do local são dedicados a alguma atividade marginal, e impressionavam quando apareciam no jornal tapando a cara com trapos e o poder do Jiu-Jitsu nas mãos, parecendo lutadores do caos, mas é burrice pensar, que esses caras é que são os donos da biografia, já que a grande maioria daria um livro por dia, sobre arte, honestidade e sacrifício...Não dá mais pra pensar muito, estão me chamando na área de luta. Agora vai ser armamento pesado, boca fechada, e quero mais ver, vai ser difícil me deter... Eu sei que muitos castelos já caíram e o meu está na mira, mas estou tranquilo com isso, eu sigo naquela máxima: Também morre quem atira.
No tatame do campeonato, de frente pro reto, tem que ficar esperto. Aqui é um estado de sítio diário, o muro tem que ser alto pra conter a enchente, tenho que criar um limite de arame farpado. Do chão que pinga e o teto infiltrado, as vezes sinto medo deste espaço apertado, pois aqui é um risco de alerta, de alerta ligado. São vários holofotes ligados aqui, meu mundo já aqueceu, mas quem sabe o que acontece aqui dentro sou eu.
A luta começou! Na primeira entrada eu sempre penso duas vezes pra entrar, mas tem momentos que atingem meu inconsciente de lutar. Tumulto! Corra que o tumulto está formado, vem cá vem ver, e se prepara, dentro desse tumulto um dia pode estar você. Não sei se vou ganhar ou perder, só sei que finalizar é o gol do Jiu-Jitsu. Eu quero é ver gol, não precisa ser de placa, eu quero é fazer gol.
Depois de um dia todo de guerra, saiu do ginásio para ver o que sobrou do céu. Na mochila amassada, um kimono e medalha abafada. Podem até não enxergar nosso valor, mas saibam eles que os verdadeiros heróis são os guerreiros da lida. Me perguntam: Pra que lutar? Eu sei que meu troco é pouco, é quase nada, mas é este meu rodo cotidiano.
Sou viciado no que faço, Jiu-Jitsu pra mim é o fininho da vida. Tem que ter calma, nessa parada não dá pra resolver tudo do dia pra noite, tudo de uma vez, uma vida inteira, tudo de uma só vez. É no tatame que minha vida rasteja. Mas você só entende isso experimentando, posso te garantir, se começar Jiu-Jitsu foi fácil, difícil vai ser parar.
Uma vida só para viver Jiu-Jitsu, que pena, porque se meus joelhos não doessem mais, gastaria pelo menos uma dúzia delas no tatame. Minha história é só mais uma no meio de milhares e milhões, mas pode ser que a minha história com a sua comunga.
Quando olho pra trás e vejo toda essa jornada, eu sei que valeu a pena para esse pescador de ilusões do Jiu-Jitsu.
“Se
O Rappa é poesia em música, o Jiu-Jitsu Brasileiro é poesia em movimento.”
Dedico
estes singelos escritos a minha esposa Luana, que dentre as tantas conexões que temos, esta parece
presente do destino: dois apaixonados pelo Jiu-Jitsu e pela banda O Rappa. E
dedico também para meu amigo Juan “Cabeça”, talvez o maior fã desta combinação
que eu conheço, e que durante o nosso rodo cotidiano do tatame, isso lá
distantes anos 2000, sempre nos motivou com esse som.
Trechos
das músicas utilizadas nos versos
Me
deixa
Minha
alma
Lado
B lado A
O
que sobrou do céu
R.A.M
Hey
Joe
Rodo
cotidiano
Mar
de gente
Papo
de surdo e mudo
Vários
holofotes
Eu
quero ver gol
Monstro
invisível
Fininho
da vida
Vida
rasteja
Uma
vida só
Pescador
de ilusões

Comentários
Enviar um comentário