Existe Jiujiteiro de Esquerda? Resposta a Fabio Gurgel
Em um programa de Podcast, chamado Conversa Paralela, produzido pelo canal Brasil Paralelo, com o título “Jiu-Jitsu Além da Vida”, aos 46:54s de entrevista, a entrevistadora pergunta aos convidados:
“É uma pergunta provocativa aqui...Por que a gente quase não vê ou não vê Jiujiteiro de esquerda? Ou é uma falsa impressão minha?”
Quem responde é o faixa coral de Jiu-Jitsu, líder máximo da Alliance Jiu-Jitsu e mega empresário do ramo, Fábio Gurgel:
“Não,
eu acho que a esquerda está em todos os lugares infelizmente...”
Pausa
para discutir esta frase inicial. Talvez no mundo ideal dele, não haveria outro
espectro político além daquele que ele segue, e assim, o Jiu-Jitsu não sofreria
com esta chaga de abrigar “esquerdistas” no seio de sua comunidade. Pois bem,
continuemos:
“Mas
eu acho que o Jiu-Jitsu tem uma questão, que você precisa pagar o preço pelas
coisas né? E eu acho que a esquerda não gosta muito de accountability, você não tem como delegar a culpa pra ninguém. Se
você tem uma luta individual, você e uma pessoa contra você, normalmente mesma
faixa, mesmo peso, mesmo que não fosse, é um ser humano igual a você do outro
lado... e você tem problema, o problema é seu, não é? Você não tem pra quem,
você não tem como dividir, sabe? E eu acho que a esquerda não gosta muito
disso. Mas eu não acho que isso... Eu acho que tem praticante de Jiu-Jitsu de
esquerda, e tomara que o Jiu-Jitsu ensine para eles pelo menos essa, entendeu? Accountability pra mim é uma das
virtudes mais importantes da pessoa ter, você matar no peito as suas
responsabilidades.”
Em
seguida, seu companheiro de entrevista, Luiz Nunes, aluno de Fabio, faixa preta
e acionista da bolsa de valores, completa a ideia iniciada pelo mestre:
“E
a única pessoa beneficiada com seu esforço é você mesmo, então você não
consegue pegar o esforço do outro... Imagina, eu sou faixa preta, o Jiu-Jitsu
tem cinco faixas, eu e você (a entrevistadora), se o Jiu-Jitsu fosse governado
pela esquerda, eu perderia uma faixa, eu seria marrom, e você ganharia uma, que
seria azul, sabe? Fazer uma distribuição assim pra dar uma equalizada...”
Dito
o que foi dito, vamos agora rebater tais ideias. Não sem antes avisar àquele
pronto com as pedras na mão para atirar em mim, visto o tamanho do sacrilégio
que é rebater um faixa coral, ainda por cima lenda do esporte: saiba que não
vou rebater a pessoa que transmite as ideias, mas sim, as ideias em si. Neste
momento evoco as palavras de Belchior na canção Apenas um Rapaz Latino Americano: “Por favor não saque a arma no
salão, eu sou apenas o cantor...”.
Vejamos
a ideia central de Fabio Gurgel, a de que o pensamento de esquerda faz com que
o praticante não tenha “accountability”,
um conceito sem tradução exata para o português que está associado à ideia de
responsabilidade, “tornar-se responsável pelos seus atos” e que, portanto, é
incapaz de apreender a meritocracia inerente à arte marcial. Nos meus vinte
anos de carreira, jamais constatei pessoas se desvirtuando ou não devido ao
pensamento político ideológico que seguiam durante a sua trajetória no jiu
jitsu, o que me faz não enxergar na realidade o conceito teorizado por Fábio.
Quando
os convidados insistem em associar conceitos trazidos de sua visão política de
direita, esquecem-se de que há arte marcial para muito além do universo do qual
estão tratando. A União Soviética (1917-1989), a maior experiência comunista da
história, formou gerações de grandes atletas em modalidades de luta como
Wrestling e Judô, e, mesmo vivendo sob um regime comandado por um estado
totalitário, pelos resultados neste tempo, parece que os lutadores soviéticos
aprenderam muito bem sobre “accountability”.
Além
da União Soviética, temos outros exemplos históricos de países comunistas que
tiveram destaque na formação de seus atletas. Não me parece que as artes
marciais praticadas em Cuba, tais como Judô, Boxe e Wrestling, dividiam seu
ranqueamento de faixa como sugeriu Luiz Nunes, tendo, aliás, atletas cubanos em
diversos momentos superando atletas de países capitalistas.
Estes
dois exemplos servem para ilustrar que o treinamento desportivo não é
influenciado por nenhum pensamento político ideológico em sua fundamentação
filosófica e marcial. Não precisamos ir tão longe. Temos dentro do próprio
Jiu-Jitsu Brasileiro algumas figuras de relevância identificados com a
esquerda, tais como: Yvone Duarte, primeira mulher a se graduar faixa preta e
faixa coral, o juiz de direito ativista das causas humanitárias Luís Carlos Valois, casca grossa da elite da
Carlson Gracie nos anos 1980 e 1990, além do multi campeão Robert Drysdale,
conhecido nos seus tempos de atleta por ostentar durante as competições um boné
do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), hoje em dia ele pode ter mudado
suas convicções, mas parecia neste tempo lidar bem com sua “accountability”.
Tendo em vista a multifacetada formação da comunidade do
Jiu-Jitsu, não só no Brasil, mas pelo mundo afora, tenho certeza que em suas
fileiras existem milhares de praticantes identificados com a esquerda, um
espectro político que se divide em diferentes vertentes, presente nas
sociedades que os praticantes de Jiu-Jitsu estão inseridos. Infelizmente, para Fabio e Luiz, vai ser
difícil criar um mundo em que o Jiu-Jitsu tenha apenas um tipo de praticante,
tal como idealizam em suas falas.
Termino esta crítica querendo demonstrar que, a visão política, religiosa, o time que torce, filosofia de vida que se segue, etc... não são elementos que formam a virtude e o caráter marcial dentro do Jiu-Jitsu. É um conjunto muito mais complexo de mecanismos físicos, psicológicos, didáticos e metodológicos que constroem o conhecimento marcial, e não uma visão política que dá virtude ao aprendiz.
Por fim, resta-me dizer que, o autor desta simbólica crítica, um esquerdista de carteirinha, está ciente e consciente para lidar com sua “accountability” nesta refutação de ideias!

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