A Incrível Vitória de Jansen Gomes: A Ginga da Cultura Negra no Jiu-Jitsu



     Caso fosse fazer uma lista de palpites para o Mundial da IBJJF do ano de 2023, dez entre dez apostadores, apontariam o franco favorito ao título de campeão mundial faixa preta peso médio, como sendo Tainan Dalpra, a máquina de vitórias da atualidade. Com sessenta vitórias em sequencia na faixa preta, jamais poderíamos imaginar que alguém fosse capaz de destrona-lo. 

    A possibilidade de uma surpresa, vinha na esperança de um jovem talento da nova geração estadunidense de Jiu-Jitsu, Tye Ruotolo. Tye vem há já algum tempo surpreendendo no cenário No-Gi, e de kimono também, apresentando um bom desempenho em ambas modalidades. O destino havia quase que consolidado que a final seria Tainan Dalpra versus Tye Ruotolo. Mas havia uma pedra no meio do caminho dos dois, o tão jovem quanto eles, mas com muito menos vitrine, Jansen Gomes, o popular, Nenego.

       Naquele dia na pirâmide de Long Beach na California, os Deuses do Jiu-Jitsu traçaram um roteiro que não condizia com aquele que a sinopse da categoria médio dava como certo. Quem apostaria na vitória de Jensen? Ele mesmo com certeza, seus treinadores e amigos também, mas tirando eles, quem mais apostaria em sua vitória?

    Jansen nas semifinais tirou, para surpresa de todos, o jovem Tye, que parecia predestinado desafiante a tentar destronar o campeão. Isso por si só já era um feito incrível, chegar à final da categoria naquela chave, vencendo o principal desafiante ao título, que feito notável não?!  Mas vencer Tainan? Diriam que era melhor não sonhar tanto.

        De um lado vinha o campeão, Tainan, com seu retrospecto de invencibilidade sob a égide da IBJJF, do outro o jovem Jansen, estreante em final de mundial. Mas Jansen carrega em si um DNA acostumado a surpreender e mudar o rumo da história, ele carrega em si a arte do negro no Jiu-Jitsu, uma arte moldada na dureza do transpor barreiras, algumas das quais parecem impossíveis até serem quebradas.

       Um estadunidense lutando, por mais genial que seja, carrega sua estética americanizada em sua luta. Um nórdico lutando, carrega sua aura de ascendência viking de guerreiros. Um japonês lutando, carrega toda uma milenar tradição oriental de arte marcial. Mas já viram um brasileiro negro lutando? Aquilo é diferente, tem uma magia que não se ensina na técnica, reside na alma.

          A ginga está presente, como que guiado pelo ritmado do samba, misturado com a batida funkeada dos morros cariocas. O jovem Jansen chama Tainan para uma dança, a qual talvez nunca tivesse dançado naquele ritmo proposto. Nenego some na frente de Tainan, reaparecendo em suas costas, fazendo o campeão pela primeira vez mostrar algum traço de humanidade, demonstrando que ele também pode sangrar, não literalmente, mas emocionalmente.

        Nada que o campeão faça tem efeito, em nenhum momento Jansen parece que cederá a técnica de seu oponente. Os deuses do Jiu-Jitsu reservaram para Nenego a apoteose, conforme o relógio chega aos dez segundos finais. Nem a torcina e nem mesmo Tainan conseguem acreditar no que está acontecendo. A pirâmide assiste incrédula a vitória, da talvez, maior zebra da história dos mundiais.

        A torcida inflama como que em um Maraca lotado em final de campeonato. De um lado temos a alegria da equipe que estampa o xadrez em seu logo, do outro uma garotinha chorra ante a derrota do ídolo de sua geração. Os gritos em bom português entoam: “Festa na Favela!”, rememorando as origens do novo campeão, demonstrando que a arte que vem de lá é diferenciada, é uma arte única, arte que só se aprende vivendo a cultura negra produzida nos morros.

Jansen é a essência desta tradição, uma tradição que remonta há mais de um século, quando lá nos anos 1910, o lendário capoeira Moleque Cyriaco, nocauteou, com um rabo de arraia, o faixa preta japonês pioneiro no Jiu-Jitsu no Brasil, Sada Myako.



 Vai passando pela pujança do Pantera Negra, Waldemar Santana, que venceu a guerra de horas contra o bastião do Jiu-Jitsu no Brasil, Hélio Gracie.



 Rememora a arte da meia guarda de Eduardo Jamelão, que levou para o tatame nos anos 1990 a catimba típica do futebol. 



Desaguando na apoteose do Jiu-Jitsu Negro dos morros, a genialidade representada na técnica malandra de Fernando Terere, ídolo que fez descer a arte da favela para dentro do tatame.


Na vitória de Jansen “Nenego” reside a resistência da cultura afro-brasileira, com uma história muito mais profunda que aqueles dez minutos de combate demonstram. Uma história moldada na luta diária que os descendentes dos escravos africanos passam, construindo pra si uma arte que carrega todos os mecanismos que a criatividade do negro criou para sobreviver, e que um dia se viu representada dentro de uma vestimenta japonesa chamada kimono.

A arte do Jiu-Jitsu do negro respira, vibra e transpira, mantendo viva a tradição dos grandes lutadores negros da arte suave brasileira, como é bom assistir isso...

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